A Praça Saens Peña está prestes a acabar — pelo menos na língua dos cariocas
Há lugares que desaparecem antes de desaparecer.
A praça continua lá. Os bancos, as árvores, os prédios, o movimento das pessoas, as entradas do metrô — tudo parece resistir ao tempo. Contudo, há algo que pode desaparecer sem que ninguém precise demolir nada: o nome.
Passe pela Tijuca e pergunte a um transeunte onde fica a Praça Saens Peña. É bastante provável que a resposta venha assim, espontânea, sem qualquer preocupação etimológica:
— Fica ali na Saens Pena, meu parceiro!
Não houve intenção de corrigir a história. Não houve desprezo pela língua espanhola. Ninguém decidiu apagar um sobrenome argentino. A pessoa simplesmente falou. E talvez seja justamente aí que esteja a beleza (e o perigo) das línguas.
O nome é Saens Peña.
Peña, com aquele pequeno til sobre o n, que para um hispanófano não tem nada de estranho. Em espanhol, o ñ representa um som que nós, brasileiros, conhecemos muito bem. Está em banho, manha, vinho. Curiosamente, conseguimos pronunciar o som sem dificuldade.
O que nos incomoda é a letra.
Peña vira Pena.
Não por decreto. Não por decisão de uma academia. Não por uma reforma ortográfica. Vira Pena porque é assim que uma língua viva costuma funcionar: A língua não pergunta de onde você veio.
Talvez a língua seja uma das instituições mais democráticas que existem. Ela não pergunta quem você é antes de permitir que você a modifique. Uma palavra chega de outra língua trazendo sua história, sua pronúncia, sua grafia. Entra no território alheio e, pouco a pouco, começa a perder algumas características. É batizada novamente. É remodelada. É pronunciada de outro jeito.
Mas quem vence: o erudito ou o popular?
Há uma velha tentação de imaginar a língua como uma sala de aula. De um lado, o professor, com o livro aberto, dizendo como deve ser. Do outro, a rua, indiferente à explicação. De um lado, a pronúncia “correta”. Do outro, a pronúncia “popular”. E, no fim, quase sempre a rua parece levar vantagem.
Mas talvez a pergunta esteja mal formulada.
A pronúncia popular não vence porque seja mais forte do que a pronúncia erudita. Ela vence, quando vence, porque é repetida. É a repetição que dá existência social às palavras. Uma criança não aprende a língua consultando um dicionário. Ela ouve.
O pai fala. A mãe fala. O vizinho fala. O motorista fala. Os colegas falam. E a criança aprende.
Se todos dizem “Saens Pena”, será preciso um esforço consciente para ensinar a ela que existe um ñ escondido naquele nome.
E mesmo depois de aprender, ela poderá continuar dizendo “Saens Pena”. Porque a língua que aprendemos na infância não é apenas um conjunto de regras. É também uma coleção de vozes.
Há, porém, uma diferença entre transformar uma palavra qualquer e transformar um nome próprio. Um nome de lugar não serve apenas para indicar um endereço. Ele guarda histórias.
Quem foi homenageado?
Por que aquela rua recebeu esse nome?
Por que aquela praça?
Quando dizemos Saens Peña, ainda existe ali uma pequena janela para a Argentina. O nome nos lembra que aquela praça carioca carrega consigo o sobrenome de um argentino.
Quando dizemos Saens Pena, a janela se fecha um pouco.
Não desaparece completamente — a história continua nos livros, nas placas, nos documentos. Mas a própria palavra já não conta sua origem tão claramente. É uma espécie de erosão, uma erosão sem barulho.
E talvez seja por isso que a questão seja tão bonita.
Não se trata de declarar uma guerra contra quem diz “Saens Pena”. Seria inútil.
“Saens Pena” é uma pronúncia perfeitamente compreensível dentro dos mecanismos de adaptação da língua portuguesa. É aquilo que uma comunidade de falantes fez com um nome estrangeiro ao incorporá-lo ao seu cotidiano. Mas também não há nada de errado em preferir Saens Peña.
Podemos preservar a grafia original por respeito à história do nome. Podemos explicar às pessoas quem foi Luis Sáenz Peña. Podemos mostrar que aquele ñ não é um enfeite exótico, e sim parte da identidade de um sobrenome espanhol. Podemos finalmente fazer uma coisa que a língua sozinha não faz: lembrar.
A praça continuará ali.Talvez daqui a algumas décadas ninguém mais estranhe a forma “Saens Pena”. Talvez a própria forma escrita também se torne menos familiar, substituída pouco a pouco por adaptações, abreviações ou simplesmente pela referência ao metrô. Talvez não.
As línguas são imprevisíveis.
Mas existe algo de poético nessa possibilidade: a praça continuará existindo.
E, enquanto alguém disser “Saens Pena”, estará acontecendo uma pequena transformação da língua. Enquanto alguém escrever “Saens Peña”, estará preservando uma pequena parte da história.
Entre uma coisa e outra, existe a praça.
Existe a cidade.
Por isso, talvez seja exagero dizer que a Praça Saens Peña está prestes a acabar. Mas não é exagero dizer que “Peña” pode estar desaparecendo da boca de quem passa por ela.


