Geral,  Sociedade

O futuro é um caminho? Metáfora e construção das expectativas

A relação entre emoções e metáforas pode parecer, à primeira vista, apenas um detalhe da linguagem poética. No entanto, pesquisas recentes em Linguística Cognitiva mostram que essa conexão é muito mais profunda e surpreendente. Quando falamos sobre o futuro, nossos medos, esperanças e expectativas não são expressos de forma neutra; na verdade, eles são estruturados por metáforas que moldam a maneira como pensamos e sentimos.

Um estudo publicado na Revista DELOS, pelo Prof. Daniel Costa Júnior, revisou pesquisas recentes (dos anos de 2024 e 2025) com o intuito de investigar como a expectativa em relação ao futuro é construída linguisticamente. O resultado revela algo instigante: emoções como esperança, ansiedade, confiança ou frustração são organizadas por metáforas de movimento, caminho, direção e esforço.

O futuro está “à frente”

Expressões cotidianas como “seguir em frente”, “olhar para frente” ou “chegar a um objetivo” não são apenas figuras de linguagem decorativas. Elas refletem uma estrutura cognitiva profunda de base metafórica: FUTURO É PARA FRENTE. Nosso corpo serve de referência espacial, e projetamos o tempo como se fosse um espaço físico. O passado fica “para trás”; o futuro, “à frente”.

Essa metáfora orientacional ajuda a organizar não apenas o tempo, mas também a emoção. Se o futuro é um caminho, então esperar algo é como caminhar em direção a um destino. Daí surgem outras metáforas recorrentes identificadas nas pesquisas analisadas: VIDA É VIAGEM, SUCESSO É AVANÇAR, CRISE É OBSTÁCULO. A expectativa torna-se, assim, um deslocamento simbólico carregado de sentimentos.

Emoções não são apenas internas

Outro ponto central revelado pela revisão é que as emoções não são vistas apenas como estados internos e individuais. Muito além disso, elas são construídas linguisticamente. Quando alguém diz “estou carregando um peso” ou “preciso superar essa fase”, está recorrendo a metáforas corporais (com conceitos de PESO, FORÇA e TRAJETO) para dar forma à experiência emocional.

Pesquisas sobre discursos políticos, literatura, economia, juventude periférica e até notas de despedida mostram padrões semelhantes. A expectativa positiva costuma ser associada a avanço, crescimento e ascensão (BOM É PARA CIMA). Já os sentimentos negativos aparecem ligados a queda, bloqueio ou desvio (RUIM É PARA BAIXO; PROBLEMA É OBSTÁCULO).

Isso sugere que o modo como sentimos o futuro depende, em parte, das metáforas disponíveis em nossa cultura. São expressões que funcionam como molduras invisíveis que organizam a experiência.

Roteiros do que esperar

Além das metáforas, os estudos destacam o papel dos chamados “frames” — estruturas cognitivas que organizam expectativas sobre situações. Um discurso político pode ativar um frame de “reconstrução”, evocando esforço coletivo e superação. Um discurso econômico pode mobilizar o frame “equilíbrio”, sugerindo estabilidade e prudência.

Esses frames influenciam como interpretamos o futuro e quais emoções consideramos adequadas. Se o futuro é apresentado como “batalha”, sentimentos como resistência e coragem são estimulados. Se é descrito como “oportunidade”, prevalecem entusiasmo e confiança.

A metáfora vai além das palavras

A relação entre emoção e metáfora não se limita à linguagem verbal. Estudos sobre cinema e publicidade mostram que gestos, enquadramentos de câmera e movimentos corporais também expressam metáforas. Um gesto direcionado para frente pode representar o futuro; um movimento ascendente pode indicar prosperidade.

Isso revela que a metáfora é um mecanismo cognitivo amplo, presente em diferentes modos de comunicação. Ela conecta corpo, emoção e linguagem.

Uma descoberta inesperada

O aspecto mais surpreendente dessa linha de pesquisa é perceber que compreender nossas emoções envolve compreender nossas metáforas. Não sentimos o futuro de forma bruta ou desestruturada: nós o imaginamos como caminho, peso, luta, crescimento, horizonte. São imagens que moldam nossas decisões, nossas esperanças e nossos medos.

Assim, estudar metáforas não é apenas analisar figuras de linguagem. É investigar como a mente humana organiza a experiência emocional do tempo. A expectativa, longe de ser um simples estado psicológico, é um fenômeno linguístico-cognitivo que revela como corpo, cultura e linguagem trabalham juntos para dar sentido ao que ainda não aconteceu.

No fim das contas, talvez entender nossas metáforas seja um passo essencial para entender nossas emoções e, quem sabe, para transformar a maneira como encaramos o futuro.

Prof.ª Janaína Ferreira

Referências

COSTA JÚNIOR, D. F. da. (2026). Conceptualizações de expectativa e tempo: uma revisão focada na abordagem sociocognitiva. REVISTA DELOS19(76), e8483. Disponível em: https://ojs.revistadelos.com/ojs/index.php/delos/article/view/8483/4610

Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/photos/crian%c3%a7as-estrada-solid%c3%a1rio-apoio-1149671/

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *