A forma e o conteúdo das resistências
Às vezes parece retrógrado pensar em estrutura em pleno século XXI, porquanto parece anacrônica a herança saussuriana advinda dos tão distantes mil e novecentos. A parole costumava ser preterida em lugar da langue, na dicotomia que se lhe compõe, pois a dificuldade dos discursos envolvia uma transcendência que ultrapassava a experimentação dos dados. A teoria literária já tentou alcançar a “estrutura” pela unidade exclusiva da presença textual, mas a leitura de versos, como “[d]izem que olhei para trás […] / Para não olhar mais para a nuca virtuosa / de meu marido Lot”, de Wisława Szymborska, é o que insiste em nos apresentar a extrapolação do dado empírico: a subjetividade.
A interioridade subjetiva é o alvo do lirismo, sem a qual não haveria a necessidade de distinção entre os gêneros lírico e épico. E, a junção entre as funções emotiva e poética é o que nos forneceria o padrão jakobsoniano (2008) da forma, a que se corporifica nos poemas. Tem-se a padronização da forma aliada ao conteúdo, que oferece a todos o conforto cognitivo da tradição estética – uma tradição que o modernismo sublimou com suas experimentações ousadas, por vezes beirando a insolência, e que geraram uma nova tradição desde então, cujo caráter Hamburguer (2007) nominou de “antipoesia”. Mas, deve haver uma forma para a tal antipoética, a forma a que tão facilmente se inseriu Szymborska, se é que há alguma facilidade nisto.
Perceba-se que o equilíbrio da forma, a serviço do conteúdo, sempre foi uma grata recomendação na arte poética. A exceção ocorre com os parnasianos e, por tabela, os simbolistas que desenvolveram a arte pela arte, uma espécie de exacerbação da forma pela qual o conteúdo era um mero detalhe. Baudelaire, mesmo sob anseios simbolistas, impulsiona a prosificação da poesia num modelo em que o metro se vai perdendo, as rimas idem. Sendo esse um legado aprimorado pelos modernistas e pós-modernistas diligentes em expressar “[…] as ‘coisas do modo como são’ na linguagem das pessoas do modo como falam” (HAMBURGUER, 2007, p. 369). O conteúdo passa a ter a primazia sobre a forma presente na superfície poética.
Em 1976, Szymborska publica Żona Lota, poema intertextual à passagem bíblica da mulher de Lot. Nele, interessam o conteúdo e os implícitos do não dito, aquilo que estaria subjacente ao direito que eu lírico não tem de olhar para trás. Se não fosse a materialidade dos versos, somente se perceberia a poesia pelo lirismo presente no fluxo de consciência. Não há metro fixo, não há rimas evidentes nas palavras finais da maioria dos versos, por exemplo, curiosa / razões / prata / sandália / Lot. Há quem diga que não se pode chegar a conclusões definitivas em poemas traduzidos. Que se veja, então, o original em polaco. Mesmo que não saibamos a gramática da língua, podemos perceber, mediante sua transcrição fonética, que as rimas ainda não são perceptíveis: ciekawości [ʨ̑ɛ̇̃ka’vɔɕʨ̑i] / powody [po’vɔdy] / srebra [‘srɛba] / sandała [‘sãndawa] / kark [kark] / Lota [‘lɔta]. Haveria, no máximo, uma rima não soante, mas toante entre as paroxítonas ciekawości e powody.
Realmente, o conteúdo de Żona Lota é o que nos toca. É a dor em representar a insignificância do gênero, dosada com uma mescla de ingenuidade e fina ironia, o que faz o leitor captar a inocência actante dos injustiçados. O eu lírico feminino aponta, logo no verso inicial, o primeiro motivo da ação de olhar para trás: a curiosidade. Sim, a clássica negação do saber imposta às mulheres, que remonta à primeira mulher do mito judaico-cristão, aquela que queria apenas provar do fruto do conhecimento no paraíso. Ainda que seja curiosidade em saber, o eu lírico lista uma série de motivações com diferentes graus de intencionalidade, algumas com pouca intenção, “[…] um vento bateu, / despenteou meu cabelo”, outras que revelam maior intuito, “[p]ela desobediência dos mansos”.
A linguagem dos poemas é bastante simples, mas não simplória. Como dizia o narrador de A hora da estrela: “Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho” (LISPECTOR, 1995, p. 25). A simplicidade é um objetivo que exige trabalho quase braçal, muita mineração e lapidação, e o ato de não se deixar envolver pela pompa dos lexemas, nem pelo anseio do uso de palavras e desinências exóticas. A linguagem simplificada, o metro simplificado, as rimas quase imperceptíveis e inexistentes tornaram-se a forma da poesia buscada pelos poetas dos tempos próximos ao nosso. Visivelmente, é uma tendência erudita, já que os poetas do povo mantêm-se sob o metro e as rimas, os repentistas, os cordelistas, os rappers e os funkeiros. Apenas nesses casos, a musicalidade da função poética parece predominar como um fenômeno das massas.
Quando o título deste microensaio refere-se à forma das resistências, não é gratuita a escolha lexical que substantiva o ato de resistir. Note-se que não se quer ressaltar a “resiliência”, que advém da língua inglesa e que é tão propagada no vocabulário dos treinadores motivacionais quânticos. Fala-se aqui da boa e velha “resistência”, presente há mais de seis séculos no léxico do português, a mesma que Clarissa Comin associa à poesia que resiste: “nas mãos e nas gargantas dos que foram espoliados de seu modo de vida, [..] tornou-se arma política e panaceia contra o silêncio imposto” (COMIN, 2017, p. 162-3).
A resistência presente nos frágeis é similar aos excertos do poema drummondiano A flor e a náusea: “Posso, sem armas, revoltar-me?”, “Todos os homens voltam para casa. / Estão menos livres mas levam jornais”. Nos versos, há a dor da submissão e da impotência, tal como pesa em Żona Lota outros sistemas de opressão. Drummond e Szymborska lançam pistas de suas vivências extratextuais no plano intratextual, ambos estiveram sob regimes totalitários, embora incida sobre a polonesa os encargos históricos do gênero feminino. Ambos selecionam, na dor, a alegria das pequenas coisas: em Szymborska, o vento levanta o vestido da mulher e ela teve a “impressão de que me viam dos muros de Sodoma / e caíam na risada”; em Drummond, uma flor nasceu na rua e rompeu o asfalto, a tal flor “[é] feia. Mas é realmente uma flor”.
De modo literal, a resistência diz respeito à capacidade de um corpo reagir a outro corpo com imobilidade. Metaforicamente, o conceito transpõe-se aos corpos humanos, sendo um lirismo emotivo que ultrapassa o plano poético e invade o plano da prosa. Muitos leitores lembram o peso social e familiar que o pai do narrador de A terceira margem do rio sentiu, ao ponto de construir para si uma canoa e isolar seu próprio corpo, a viver o resto dos dias num rio. Não há outra forma de ver isso, senão “[p]ela desobediência dos mansos”, como se declara em Żona Lota.
Os sistemas sociais e suas relações de poder são elementos abstratos que influem no plano físico do corpo. De outro modo, como explicar a dramática conclusão em que o corpo assume a regência de tudo o que era antes intencional e não intencional? A mulher de Lot sente uma asfixia e rodopia até cair ao chão. Nesse gesto involuntário, encontra-se a possibilidade de que, no momento da queda, seus olhos tenham fitado, de relance, a cidade condenada.
Um dos argumentos ressaltados em Comin (2017) é o de que a produção de poesia, depois da Segunda Guerra Mundial, tornara-se principalmente um ato de resistência. Acrescentamos que, ao representar os sujeitos que passam por diversos tipos de pressão social, a poesia garante a si mesma uma função dupla: a de resistência pela arte e a de resistência dos indivíduos. Não há espaço para rebuscamentos de formas sintagmáticas e de metro, a forma deve estar a serviço do conteúdo na transmissão de valores tão universais quanto a resistência dos corpos. Portanto, a estrutura pode ser similar ao conceito de signo linguístico, que alia o plano de expressão ao plano de conteúdo, a junção entre o significado e o significante. O paradigma a ser seguido é o da linguagem simples, não rasa nem pomposa, mas aquela com o devido despojamento para expressar o que importa.
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Íntegra dos poemas mencionados:
A mulher de Lot [Wisława Szymborska]
Dizem que olhei para trás de curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração — amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus — simplesmente tudo que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento bateu,
despenteou meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.
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A flor e a náusea [Carlos Drummond de Andrade]
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
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Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
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Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
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Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
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Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
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Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
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Uma flor nasceu na rua!
Passe de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
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Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
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Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Prof. Daniel Costa Jr.

Referências
ANDRADE, Carlos Drummond. A rosa do povo. 21 ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.
COMIN, Clarissa L. Apontamentos sobre corpo e resistência: análise de dois poemas de Wisława Szymborska. Anuário de Literatura, [S. l.], v. 22, n. 2, p. 161-173, 2017. DOI: 10.5007/2175-7917.2017v22n2p161. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/2175-7917.2017v22n2p161. Acesso em: 16 maio 2021.
HAMBURGUER, Michael. A verdade da poesia: tensões na poesia modernista desde Baudelaire. Trad. Alípio Correia de Franca Neto. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
JAKOBSON, Roman. Linguística e poética. In: JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. Trad. Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 22ª ed. São Paulo: Cultrix, 2008. p. 118-192.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. ed. 27. São Paulo: Cultrix, 2006.
SZYMBORSKA, Wisława. Poemas. Trad. Regina Przybycien. São Paulo: Cia das Letras, 2011.


