Gramática,  Sociedade

O “vós” morreu? Os vestígios fascinantes de um pronome

Por mais anacrônico que possa parecer, às vezes nos deparamos com produções linguísticas reais de contextos contemporâneos, como o que se segue:

“Aliás, eu reafirmo o respeito que tenho por Vossa Excelência e a admiração por vosso trabalho”. (Ricardo Lewandowski, em diálogo com outros ministros do STF, 2012)

Ora, não estariam o pronome “vós” e seus associados extintos do português do Brasil?

Por mais combalido, cambaleante e desaparecido que o “vós” esteja, ainda é possível encontrar resquícios de sua existência por estas terras. Logo, a resposta que podemos confabular, antes de decretar a sua “morte”, é que o “vós”, junto a seus pronomes associados e a suas conjugações verbais, permanece existindo com um uso muito restrito e com funções bem distintas da tradicional.

Basta ir à igreja, abrir uma Bíblia, assistir a um filme histórico ou frequentar locais de fala solene, que eventualmente você encontrará o pronome “vós”. Para os brasileiros, ele soa antigo, formal ou até estranho, mas merece o respeito que uma bela relíquia antiga pode ter.

O que é o pronome “vós”?

“Vós” é o pronome pessoal de segunda pessoa do plural, equivalente a “vocês”. Na gramática tradicional, ele exige verbos conjugados com desinências específicas:

  • vós falais
  • vós fostes
  • vós tereis
  • vós sois

Esse sistema ainda é ensinado em tabelas completas de conjugação verbal, mas não corresponde ao uso cotidiano do português brasileiro. Talvez, por esse motivo, o paradigma verbal do “vós” não apareça nos compêndios de “Português para Estrangeiros” e é cada vez menos enfatizado no ensino de português para falantes nativos.

Ao longo dos séculos, o português falado no Brasil passou por uma forte simplificação do sistema pronominal. O pronome “vocês” substituiu quase totalmente o “vós”, e com ele veio também a conjugação de terceira pessoa:

  • vocês falam (em vez de “falais”)
  • vocês foram (em vez de “fostes”)
  • vocês são (em vez de “sois”)

Na língua falada, o “vós” praticamente desapareceu. Ele não é usado em conversas informais, na mídia cotidiana ou na escrita comum. O que faz com que muitos falantes sequer reconheçam suas formas verbais.

Onde o “vós” ainda aparece

Apesar de incomum, o pronome “vós” não sumiu completamente. Ele sobrevive em alguns contextos específicos:

1. Linguagem religiosa

Este é o ambiente mais comum do “vós” no Brasil. Textos bíblicos, orações e liturgias frequentemente mantêm esse pronome:

  • “Pai nosso que estais no céu…”
  • “Eu vos dou a paz”
  • “O Senhor esteja convosco”

Aqui, o “vós” contribui para um tom solene e tradicional.

2. Linguagem jurídica e solene

Em contextos formais ou cerimoniais, o “vós” pode aparecer para criar efeito de elevação:

  • “Eu vos declaro…”
  • “Concedo-vos…”
  • “Dirijo-me a vós…”

Esse uso é estilístico, não natural da fala cotidiana.

3. Literatura e recriação histórica

Autores podem usar “vós” para simular épocas antigas ou estilos clássicos:

  • diálogos medievais
  • narrativas épicas
  • textos com tom arcaizante

Nesse caso, o pronome funciona como recurso expressivo.

“Vós” e “vos”: não são a mesma coisa

Embora ambos sejam raros, é mais frequente ouvir o “vos” (pronome oblíquo) do que o “vós” (pronome reto). Construções com o pronome de complemento ainda ocorrem de modo ocasional: “eu vos digo”, “entreguei-vos”, “Deus vos abençoe” etc. Isso mostra que partes do sistema podem sobreviver separadamente.

Pronome pessoal retoPronome pessoal oblíquoPronome possessivo
(função de sujeito)(função de complemento)(função adnominal)
vósvos, convoscovosso, vossa, vossos, vossas

O “vós” morreu?

Não exatamente. Ele não morreu, mas mudou de função. Hoje, no português brasileiro, o “vós”:

  • não é usado na fala cotidiana
  • aparece em contextos formais ou religiosos
  • funciona como marca de solenidade
  • tem valor mais estilístico do que gramatical

Em termos linguísticos, dizemos que ele se tornou um pronome arcaizante, usado para produzir efeito de tradição ou formalidade. Veja exemplos contemporâneos em nossa música:

Dai-me uma dor
Que sirva para eu acordar
Dai-me outra cor, dai-me um amor, dai-me uma dor”  
“Que é tapete de serpente que dão pra nós pisar
Andai com passo firme que é pra não bambear”  
(verbo “dar” conjugado no paradigma do “vós” – segunda pessoa do plural)
Letra da canção “Duas Cores”, do grupo pernambucano Mombojó.
(Verbo “andar” conjugado no paradigma do “vós” – segunda pessoa do plural)
Letra da canção “Valente”, da cantora paulistana MC Tha.

O pronome “vós” é um excelente exemplo de como a língua muda com o tempo. Antes comum, hoje ele ocupa um espaço restrito, ligado à tradição, à religião e à literatura. Mesmo assim, continua presente no imaginário linguístico dos falantes e na gramática normativa.

Assim, quando ouvimos “vós sois”, não estamos diante de um erro nem de algo totalmente ultrapassado, mas sim de uma peça histórica viva do português, que ainda resiste em certos contextos.

E quem sabe? Em textos criativos, discursos solenes ou brincadeiras linguísticas, talvez ainda possamos dizer:

“Vós ainda tendes lugar no português brasileiro.”

“E que este conteúdo vos agrade!”

Algumas Fontes

Evanildo Bechara — Moderna Gramática Portuguesa

Celso Cunha e Lindley Cintra — Nova Gramática do Português Contemporâneo

Fala do ministro Lewandowski:

https://www.migalhas.com.br/quentes/163882/jb-e-lewandowski-trocam-farpas-novamente

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