O verbo “haver” pode ir para o plural?

Uma das dúvidas mais comuns entre estudantes e falantes do português é esta: o verbo haver, quando usado no sentido de existir, deve ficar no singular ou pode ir para o plural? A resposta gramatical é categórica — e muita gente erra justamente por confundi-lo com outro verbo. Neste artigo, tratamos principalmente do uso em contextos de prestígio, que exigem grau de formalidade. A regra: “haver” é impessoal Quando haver equivale a existir ou indica a presença de algo, ele é um verbo impessoal. Isso significa que não tem sujeito. E, sem sujeito, não há concordância a fazer. O verbo fica sempre na terceira pessoa do singular, independentemente do número de seres ou coisas a que se refere. Veja os exemplos: O elemento que aparece depois do verbo (muitas pessoas, grandes mudanças, novos candidatos) não é o sujeito da oração — é o objeto direto. E objeto direto não provoca concordância verbal. Por que tanta gente erra? A semelhança com TER e EXISTIR A confusão acontece quase sempre por influência do verbo TER, que, na língua coloquial, é frequentemente usado no mesmo sentido de haver existencial. Para Bechara (2009), o uso do ter existencial deve ser evitado em contextos de língua culta. Já os gramáticos Cunha e Cintra (2008) admitem que se o ter é utilizado como um verbo existencial, então deveria ser utilizado igualmente na terceira pessoa do singular, mas recomendam que não o utilizem em língua culta. Não se subscreve a esse problema o verbo EXISTIR, pois admite o sujeito e pode variar entre singular e plural. Caso especial: “há” como marcador de tempo Quando haver indica tempo decorrido, também é impessoal e fica sempre no singular: Atenção: nesse caso, é comum a confusão com a preposição a, especialmente ao indicar tempo futuro ou distância: Caso especial: verbos auxiliares de “haver” Os verbos auxiliares de haver sofrem influência do verbo principal que possui o sentido de existência. Nesse caso, verbos como poder e dever ficam no singular, ainda que o objeto referido esteja no plural (Faraco; Tezza, 2004) “Haver” no plural: quando é correto? Existe uma situação em que haver vai normalmente para o plural: quando ele não está sendo usado com sentido existencial, mas sim como verbo auxiliar em tempos compostos. Nesses casos, o verbo concorda normalmente com o sujeito da oração: Aqui, haviam e hão concordam com os sujeitos eles, as equipes e os participantes, respectivamente. Não há nenhum problema gramatical nisso. Resumindo Uso do verbo haver Número Exemplo correto Sentido de existir Sempre singular Há muitos problemas. Indicar tempo decorrido Sempre singular Há três anos, mudei de cidade. Verbo auxiliar de haver Sempre singular Pode haver erros na prova. Haver auxiliar de outros verbos Concorda com o sujeito Elas haviam chegado cedo. Vale lembrar A norma padrão — a que se espera em textos formais, jornalísticos, acadêmicos e literários — exige o singular para haver impessoal. Na linguagem coloquial e informal, a pluralização aparece com frequência e é socialmente compreensível, mas é avaliada negativamente em contextos de prestígio. O conselho é simples: sempre que haver significar existir, mantenha-o no singular. Sem exceções. Gostou do artigo? Compartilhe-o com quem também tem essa dúvida — ela é mais comum do que parece. Prof. Daniel Costa Júnior Referências BECHARA, E. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. CUNHA,  C.;  CINTRA,  L. Nova Gramática do Português  Contemporâneo. Rio  de Janeiro: Lexikon, 2008. FARACO, C. A.; TEZZA, C. Oficina de texto. Petrópolis: Vozes, 2004.