{"id":692,"date":"2026-08-31T23:16:32","date_gmt":"2026-09-01T02:16:32","guid":{"rendered":"https:\/\/lexema.com.br\/?p=692"},"modified":"2026-08-31T23:16:34","modified_gmt":"2026-09-01T02:16:34","slug":"a-praca-saens-pena-esta-prestes-a-acabar-pelo-menos-na-lingua-dos-cariocas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/2026\/08\/31\/a-praca-saens-pena-esta-prestes-a-acabar-pelo-menos-na-lingua-dos-cariocas\/","title":{"rendered":"A Pra\u00e7a Saens Pe\u00f1a est\u00e1 prestes a acabar \u2014 pelo menos na l\u00edngua dos cariocas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 lugares que desaparecem antes de desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pra\u00e7a continua l\u00e1. Os bancos, as \u00e1rvores, os pr\u00e9dios, o movimento das pessoas, as entradas do metr\u00f4 \u2014 tudo parece resistir ao tempo. Contudo, h\u00e1 algo que pode desaparecer sem que ningu\u00e9m precise demolir nada: o nome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Passe pela Tijuca e pergunte a um transeunte onde fica a Pra\u00e7a Saens Pe\u00f1a. \u00c9 bastante prov\u00e1vel que a resposta venha assim, espont\u00e2nea, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Fica ali na Saens Pena, meu parceiro!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o houve inten\u00e7\u00e3o de corrigir a hist\u00f3ria. N\u00e3o houve desprezo pela l\u00edngua espanhola. Ningu\u00e9m decidiu apagar um sobrenome argentino. A pessoa simplesmente falou. E talvez seja justamente a\u00ed que esteja a beleza (e o perigo) das l\u00ednguas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nome \u00e9 <strong>Saens Pe\u00f1a<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pe\u00f1a, com aquele pequeno til sobre o <em>n<\/em>, que para um hispan\u00f3fano n\u00e3o tem nada de estranho. Em espanhol, o <em>\u00f1<\/em> representa um som que n\u00f3s, brasileiros, conhecemos muito bem. Est\u00e1 em <em>banho<\/em>, <em>manha<\/em>, <em>vinho<\/em>. Curiosamente, conseguimos pronunciar o som sem dificuldade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que nos incomoda \u00e9 a letra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pe\u00f1a vira Pena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o por decreto. N\u00e3o por decis\u00e3o de uma academia. N\u00e3o por uma reforma ortogr\u00e1fica. Vira Pena porque \u00e9 assim que uma l\u00edngua viva costuma funcionar: A l\u00edngua n\u00e3o pergunta de onde voc\u00ea veio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a l\u00edngua seja uma das institui\u00e7\u00f5es mais democr\u00e1ticas que existem. Ela n\u00e3o pergunta quem voc\u00ea \u00e9 antes de permitir que voc\u00ea a modifique. Uma palavra chega de outra l\u00edngua trazendo sua hist\u00f3ria, sua pron\u00fancia, sua grafia. Entra no territ\u00f3rio alheio e, pouco a pouco, come\u00e7a a perder algumas caracter\u00edsticas. \u00c9 batizada novamente. \u00c9 remodelada. \u00c9 pronunciada de outro jeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mas quem vence: o erudito ou o popular?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma velha tenta\u00e7\u00e3o de imaginar a l\u00edngua como uma sala de aula. De um lado, o professor, com o livro aberto, dizendo como deve ser. Do outro, a rua, indiferente \u00e0 explica\u00e7\u00e3o. De um lado, a pron\u00fancia \u201ccorreta\u201d. Do outro, a pron\u00fancia \u201cpopular\u201d. E, no fim, quase sempre a rua parece levar vantagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas talvez a pergunta esteja mal formulada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pron\u00fancia popular n\u00e3o vence porque seja mais forte do que a pron\u00fancia erudita. Ela vence, quando vence, porque \u00e9 repetida. \u00c9 a repeti\u00e7\u00e3o que d\u00e1 exist\u00eancia social \u00e0s palavras. Uma crian\u00e7a n\u00e3o aprende a l\u00edngua consultando um dicion\u00e1rio. Ela ouve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pai fala. A m\u00e3e fala. O vizinho fala. O motorista fala. Os colegas falam. E a crian\u00e7a aprende.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se todos dizem \u201cSaens Pena\u201d, ser\u00e1 preciso um esfor\u00e7o consciente para ensinar a ela que existe um <em>\u00f1<\/em> escondido naquele nome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E mesmo depois de aprender, ela poder\u00e1 continuar dizendo \u201cSaens Pena\u201d. Porque a l\u00edngua que aprendemos na inf\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de regras. \u00c9 tamb\u00e9m uma cole\u00e7\u00e3o de vozes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, por\u00e9m, uma diferen\u00e7a entre transformar uma palavra qualquer e transformar um nome pr\u00f3prio. Um nome de lugar n\u00e3o serve apenas para indicar um endere\u00e7o. Ele guarda hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem foi homenageado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que aquela rua recebeu esse nome?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que aquela pra\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando dizemos <strong>Saens Pe\u00f1a<\/strong>, ainda existe ali uma pequena janela para a Argentina. O nome nos lembra que aquela pra\u00e7a carioca carrega consigo o sobrenome de um argentino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando dizemos <strong>Saens Pena<\/strong>, a janela se fecha um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o desaparece completamente \u2014 a hist\u00f3ria continua nos livros, nas placas, nos documentos. Mas a pr\u00f3pria palavra j\u00e1 n\u00e3o conta sua origem t\u00e3o claramente. \u00c9 uma esp\u00e9cie de eros\u00e3o, uma eros\u00e3o sem barulho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez seja por isso que a quest\u00e3o seja t\u00e3o bonita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se trata de declarar uma guerra contra quem diz \u201cSaens Pena\u201d. Seria in\u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSaens Pena\u201d \u00e9 uma pron\u00fancia perfeitamente compreens\u00edvel dentro dos mecanismos de adapta\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa. \u00c9 aquilo que uma comunidade de falantes fez com um nome estrangeiro ao incorpor\u00e1-lo ao seu cotidiano. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em preferir <strong>Saens Pe\u00f1a<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos preservar a grafia original por respeito \u00e0 hist\u00f3ria do nome. Podemos explicar \u00e0s pessoas quem foi Luis S\u00e1enz Pe\u00f1a. Podemos mostrar que aquele <em>\u00f1<\/em> n\u00e3o \u00e9 um enfeite ex\u00f3tico, e sim parte da identidade de um sobrenome espanhol. Podemos finalmente fazer uma coisa que a l\u00edngua sozinha n\u00e3o faz: lembrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pra\u00e7a continuar\u00e1 ali.Talvez daqui a algumas d\u00e9cadas ningu\u00e9m mais estranhe a forma \u201cSaens Pena\u201d. Talvez a pr\u00f3pria forma escrita tamb\u00e9m se torne menos familiar, substitu\u00edda pouco a pouco por adapta\u00e7\u00f5es, abrevia\u00e7\u00f5es ou simplesmente pela refer\u00eancia ao metr\u00f4. Talvez n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As l\u00ednguas s\u00e3o imprevis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas existe algo de po\u00e9tico nessa possibilidade: a pra\u00e7a continuar\u00e1 existindo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, enquanto algu\u00e9m disser \u201cSaens Pena\u201d, estar\u00e1 acontecendo uma pequena transforma\u00e7\u00e3o da l\u00edngua. Enquanto algu\u00e9m escrever \u201cSaens Pe\u00f1a\u201d, estar\u00e1 preservando uma pequena parte da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre uma coisa e outra, existe a pra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, talvez seja exagero dizer que a Pra\u00e7a Saens Pe\u00f1a est\u00e1 prestes a acabar. Mas n\u00e3o \u00e9 exagero dizer que \u201cPe\u00f1a\u201d pode estar desaparecendo da boca de quem passa por ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 lugares que desaparecem antes de desaparecer. A pra\u00e7a continua l\u00e1. Os bancos, as \u00e1rvores, os pr\u00e9dios, o movimento das pessoas, as entradas do metr\u00f4 \u2014 tudo parece resistir ao tempo. Contudo, h\u00e1 algo que pode desaparecer sem que ningu\u00e9m precise demolir nada: o nome. Passe pela Tijuca e pergunte a um transeunte onde fica a Pra\u00e7a Saens Pe\u00f1a. \u00c9 bastante prov\u00e1vel que a resposta venha assim, espont\u00e2nea, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica: \u2014 Fica ali na Saens Pena, meu parceiro! N\u00e3o houve inten\u00e7\u00e3o de corrigir a hist\u00f3ria. N\u00e3o houve desprezo pela l\u00edngua espanhola. Ningu\u00e9m decidiu apagar um sobrenome argentino. A pessoa simplesmente falou. 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Entra no territ\u00f3rio alheio e, pouco a pouco, come\u00e7a a perder algumas caracter\u00edsticas. \u00c9 batizada novamente. \u00c9 remodelada. \u00c9 pronunciada de outro jeito. Mas quem vence: o erudito ou o popular? H\u00e1 uma velha tenta\u00e7\u00e3o de imaginar a l\u00edngua como uma sala de aula. De um lado, o professor, com o livro aberto, dizendo como deve ser. Do outro, a rua, indiferente \u00e0 explica\u00e7\u00e3o. De um lado, a pron\u00fancia \u201ccorreta\u201d. Do outro, a pron\u00fancia \u201cpopular\u201d. E, no fim, quase sempre a rua parece levar vantagem. Mas talvez a pergunta esteja mal formulada. A pron\u00fancia popular n\u00e3o vence porque seja mais forte do que a pron\u00fancia erudita. Ela vence, quando vence, porque \u00e9 repetida. \u00c9 a repeti\u00e7\u00e3o que d\u00e1 exist\u00eancia social \u00e0s palavras. Uma crian\u00e7a n\u00e3o aprende a l\u00edngua consultando um dicion\u00e1rio. Ela ouve. O pai fala. A m\u00e3e fala. O vizinho fala. O motorista fala. Os colegas falam. E a crian\u00e7a aprende. Se todos dizem \u201cSaens Pena\u201d, ser\u00e1 preciso um esfor\u00e7o consciente para ensinar a ela que existe um \u00f1 escondido naquele nome. E mesmo depois de aprender, ela poder\u00e1 continuar dizendo \u201cSaens Pena\u201d. Porque a l\u00edngua que aprendemos na inf\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de regras. \u00c9 tamb\u00e9m uma cole\u00e7\u00e3o de vozes. H\u00e1, por\u00e9m, uma diferen\u00e7a entre transformar uma palavra qualquer e transformar um nome pr\u00f3prio. Um nome de lugar n\u00e3o serve apenas para indicar um endere\u00e7o. Ele guarda hist\u00f3rias. Quem foi homenageado? Por que aquela rua recebeu esse nome? Por que aquela pra\u00e7a? Quando dizemos Saens Pe\u00f1a, ainda existe ali uma pequena janela para a Argentina. O nome nos lembra que aquela pra\u00e7a carioca carrega consigo o sobrenome de um argentino. Quando dizemos Saens Pena, a janela se fecha um pouco. N\u00e3o desaparece completamente \u2014 a hist\u00f3ria continua nos livros, nas placas, nos documentos. Mas a pr\u00f3pria palavra j\u00e1 n\u00e3o conta sua origem t\u00e3o claramente. \u00c9 uma esp\u00e9cie de eros\u00e3o, uma eros\u00e3o sem barulho. E talvez seja por isso que a quest\u00e3o seja t\u00e3o bonita. N\u00e3o se trata de declarar uma guerra contra quem diz \u201cSaens Pena\u201d. Seria in\u00fatil. \u201cSaens Pena\u201d \u00e9 uma pron\u00fancia perfeitamente compreens\u00edvel dentro dos mecanismos de adapta\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa. \u00c9 aquilo que uma comunidade de falantes fez com um nome estrangeiro ao incorpor\u00e1-lo ao seu cotidiano. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em preferir Saens Pe\u00f1a. Podemos preservar a grafia original por respeito \u00e0 hist\u00f3ria do nome. Podemos explicar \u00e0s pessoas quem foi Luis S\u00e1enz Pe\u00f1a. Podemos mostrar que aquele \u00f1 n\u00e3o \u00e9 um enfeite ex\u00f3tico, e sim parte da identidade de um sobrenome espanhol. Podemos finalmente fazer uma coisa que a l\u00edngua sozinha n\u00e3o faz: lembrar. A pra\u00e7a continuar\u00e1 ali.Talvez daqui a algumas d\u00e9cadas ningu\u00e9m mais estranhe a forma \u201cSaens Pena\u201d. Talvez a pr\u00f3pria forma escrita tamb\u00e9m se torne menos familiar, substitu\u00edda pouco a pouco por adapta\u00e7\u00f5es, abrevia\u00e7\u00f5es ou simplesmente pela refer\u00eancia ao metr\u00f4. Talvez n\u00e3o. As l\u00ednguas s\u00e3o imprevis\u00edveis. Mas existe algo de po\u00e9tico nessa possibilidade: a pra\u00e7a continuar\u00e1 existindo. E, enquanto algu\u00e9m disser \u201cSaens Pena\u201d, estar\u00e1 acontecendo uma pequena transforma\u00e7\u00e3o da l\u00edngua. Enquanto algu\u00e9m escrever \u201cSaens Pe\u00f1a\u201d, estar\u00e1 preservando uma pequena parte da hist\u00f3ria. Entre uma coisa e outra, existe a pra\u00e7a. Existe a cidade. Por isso, talvez seja exagero dizer que a Pra\u00e7a Saens Pe\u00f1a est\u00e1 prestes a acabar. 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