{"id":648,"date":"2026-04-30T23:15:05","date_gmt":"2026-05-01T02:15:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lexema.com.br\/?p=648"},"modified":"2026-05-01T00:13:25","modified_gmt":"2026-05-01T03:13:25","slug":"o-vos-morreu-os-vestigios-fascinantes-de-um-pronome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/2026\/04\/30\/o-vos-morreu-os-vestigios-fascinantes-de-um-pronome\/","title":{"rendered":"O \u201cv\u00f3s\u201d morreu? Os vest\u00edgios fascinantes de um pronome"},"content":{"rendered":"\n<p>Por mais anacr\u00f4nico que possa parecer, \u00e0s vezes nos deparamos com produ\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas reais de contextos contempor\u00e2neos, como o que se segue:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-pale-ocean-gradient-background has-background\">&#8220;Ali\u00e1s, eu reafirmo o respeito que tenho por <strong>Vossa<\/strong> Excel\u00eancia e a admira\u00e7\u00e3o por <strong>vosso<\/strong> trabalho&#8221;. (Ricardo Lewandowski, em di\u00e1logo com outros ministros do STF, 2012)<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ora, n\u00e3o estariam o pronome \u201cv\u00f3s\u201d e seus associados extintos do portugu\u00eas do Brasil? <\/p>\n\n\n\n<p>Por mais combalido, cambaleante e desaparecido que o \u201cv\u00f3s\u201d esteja, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar resqu\u00edcios de sua exist\u00eancia por estas terras. Logo, a resposta que podemos confabular, antes de decretar a sua \u201cmorte\u201d, \u00e9 que o \u201cv\u00f3s\u201d, junto a seus pronomes associados e a suas conjuga\u00e7\u00f5es verbais, permanece existindo com um uso muito restrito e com fun\u00e7\u00f5es bem distintas da tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta ir \u00e0 igreja, abrir uma B\u00edblia, assistir a um filme hist\u00f3rico ou frequentar locais de fala solene, que eventualmente voc\u00ea encontrar\u00e1 o pronome <strong>\u201cv\u00f3s\u201d<\/strong>. Para os brasileiros, ele soa antigo, formal ou at\u00e9 estranho, mas merece o respeito que uma bela rel\u00edquia antiga pode ter.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 o pronome \u201cv\u00f3s\u201d?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cV\u00f3s\u201d \u00e9 o pronome pessoal de <strong>segunda pessoa do plural<\/strong>, equivalente a \u201cvoc\u00eas\u201d. Na gram\u00e1tica tradicional, ele exige verbos conjugados com desin\u00eancias espec\u00edficas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>v\u00f3s <strong>falais<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li>v\u00f3s <strong>fostes<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li>v\u00f3s <strong>tereis<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li>v\u00f3s <strong>sois<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Esse sistema ainda \u00e9 ensinado em tabelas completas de conjuga\u00e7\u00e3o verbal, mas n\u00e3o corresponde ao uso cotidiano do portugu\u00eas brasileiro. Talvez, por esse motivo, o paradigma verbal do \u201cv\u00f3s\u201d n\u00e3o apare\u00e7a nos comp\u00eandios de \u201cPortugu\u00eas para Estrangeiros\u201d e \u00e9 cada vez menos enfatizado no ensino de portugu\u00eas para falantes nativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos, o portugu\u00eas falado no Brasil passou por uma forte simplifica\u00e7\u00e3o do sistema pronominal. O pronome <strong>\u201cvoc\u00eas\u201d<\/strong> substituiu quase totalmente o \u201cv\u00f3s\u201d, e com ele veio tamb\u00e9m a conjuga\u00e7\u00e3o de terceira pessoa:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>voc\u00eas <strong>falam<\/strong> (em vez de \u201cfalais\u201d)<\/li>\n\n\n\n<li>voc\u00eas <strong>foram<\/strong> (em vez de \u201cfostes\u201d)<\/li>\n\n\n\n<li>voc\u00eas <strong>s\u00e3o<\/strong> (em vez de \u201csois\u201d)<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Na l\u00edngua falada, o <strong>\u201cv\u00f3s\u201d praticamente desapareceu<\/strong>. Ele n\u00e3o \u00e9 usado em conversas informais, na m\u00eddia cotidiana ou na escrita comum. O que faz com que muitos falantes sequer reconhe\u00e7am suas formas verbais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Onde o \u201cv\u00f3s\u201d ainda aparece<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de incomum, o pronome \u201cv\u00f3s\u201d n\u00e3o sumiu completamente. Ele sobrevive em alguns contextos espec\u00edficos:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Linguagem religiosa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o ambiente mais comum do \u201cv\u00f3s\u201d no Brasil. Textos b\u00edblicos, ora\u00e7\u00f5es e liturgias frequentemente mant\u00eam esse pronome:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>\u201cPai nosso que <strong>estais<\/strong> no c\u00e9u\u2026\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>\u201cEu <strong>vos<\/strong> dou a paz\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>\u201cO Senhor <strong>esteja<\/strong> convosco\u201d<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Aqui, o \u201cv\u00f3s\u201d contribui para um tom solene e tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Linguagem jur\u00eddica e solene<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em contextos formais ou cerimoniais, o \u201cv\u00f3s\u201d pode aparecer para criar efeito de eleva\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>\u201cEu <strong>vos<\/strong> declaro\u2026\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>\u201cConcedo-vos\u2026\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>\u201cDirijo-me a v\u00f3s\u2026\u201d<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Esse uso \u00e9 estil\u00edstico, n\u00e3o natural da fala cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Literatura e recria\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Autores podem usar \u201cv\u00f3s\u201d para simular \u00e9pocas antigas ou estilos cl\u00e1ssicos:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>di\u00e1logos medievais<\/li>\n\n\n\n<li>narrativas \u00e9picas<\/li>\n\n\n\n<li>textos com tom arcaizante<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Nesse caso, o pronome funciona como recurso expressivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cV\u00f3s\u201d e \u201cvos\u201d: n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora ambos sejam raros, \u00e9 mais frequente ouvir o <strong>\u201cvos\u201d (pronome obl\u00edquo)<\/strong> do que o <strong>\u201cv\u00f3s\u201d (pronome reto)<\/strong>. Constru\u00e7\u00f5es com o pronome de complemento ainda ocorrem de modo ocasional: \u201ceu <strong>vos<\/strong> digo\u201d, \u201centreguei-<strong>vos<\/strong>\u201d, \u201cDeus <strong>vos<\/strong> aben\u00e7oe\u201d etc. Isso mostra que partes do sistema podem sobreviver separadamente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table class=\"has-fixed-layout\"><tbody><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><strong>Pronome pessoal reto<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><strong>Pronome pessoal obl\u00edquo<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><strong>Pronome possessivo<\/strong><\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">(fun\u00e7\u00e3o de sujeito)<\/td><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">(fun\u00e7\u00e3o de complemento)<\/td><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">(fun\u00e7\u00e3o adnominal)<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><strong>v\u00f3s<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><strong>vos<\/strong>, <strong>convosco<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><strong>vosso, vossa, vossos, vossas<\/strong><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O \u201cv\u00f3s\u201d morreu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o exatamente. Ele n\u00e3o morreu, mas mudou de fun\u00e7\u00e3o. Hoje, no portugu\u00eas brasileiro, o \u201cv\u00f3s\u201d:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>n\u00e3o \u00e9 usado na fala cotidiana<\/li>\n\n\n\n<li>aparece em contextos formais ou religiosos<\/li>\n\n\n\n<li>funciona como marca de solenidade<\/li>\n\n\n\n<li>tem valor mais estil\u00edstico do que gramatical<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Em termos lingu\u00edsticos, dizemos que ele se tornou um <strong>pronome arcaizante<\/strong>, usado para produzir efeito de tradi\u00e7\u00e3o ou formalidade. Veja exemplos contempor\u00e2neos em nossa m\u00fasica:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table class=\"has-fixed-layout\"><tbody><tr><td>\u201c<strong>Dai<\/strong>-me uma dor<br>Que sirva para eu acordar<br><strong>Dai<\/strong>-me outra cor, <strong>dai<\/strong>-me um amor, <strong>dai<\/strong>-me uma dor\u201d &nbsp;<\/td><td>\u201cQue \u00e9 tapete de serpente que d\u00e3o pra n\u00f3s pisar<br><strong>Andai<\/strong> com passo firme que \u00e9 pra n\u00e3o bambear\u201d &nbsp;<\/td><\/tr><tr><td>(verbo \u201cdar\u201d conjugado no paradigma do \u201cv\u00f3s\u201d \u2013 segunda pessoa do plural) <br>Letra da can\u00e7\u00e3o \u201cDuas Cores\u201d, do grupo pernambucano Momboj\u00f3.<\/td><td>(Verbo \u201candar\u201d conjugado no paradigma do \u201cv\u00f3s\u201d \u2013 segunda pessoa do plural) <br>Letra da can\u00e7\u00e3o \u201cValente\u201d, da cantora paulistana MC Tha.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O pronome \u201cv\u00f3s\u201d \u00e9 um excelente exemplo de como a l\u00edngua muda com o tempo. Antes comum, hoje ele ocupa um espa\u00e7o restrito, ligado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0 literatura. Mesmo assim, continua presente no imagin\u00e1rio lingu\u00edstico dos falantes e na gram\u00e1tica normativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, quando ouvimos \u201cv\u00f3s sois\u201d, n\u00e3o estamos diante de um erro nem de algo totalmente ultrapassado, mas sim de uma pe\u00e7a hist\u00f3rica viva do portugu\u00eas, que ainda resiste em certos contextos.<\/p>\n\n\n\n<p>E quem sabe? Em textos criativos, discursos solenes ou brincadeiras lingu\u00edsticas, talvez ainda possamos dizer:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cV\u00f3s ainda tendes lugar no portugu\u00eas brasileiro.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cE que este conte\u00fado vos agrade!\u201d<\/strong> <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"512\" src=\"http:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-295\" style=\"width:96px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3.png 512w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-300x300.png 300w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-150x150.png 150w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-270x270.png 270w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-192x192.png 192w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-180x180.png 180w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-32x32.png 32w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Algumas Fontes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Evanildo Bechara \u2014 <em>Moderna Gram\u00e1tica Portuguesa<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Celso Cunha e Lindley Cintra \u2014 <em>Nova Gram\u00e1tica do Portugu\u00eas Contempor\u00e2neo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Fala do ministro Lewandowski:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/www.migalhas.com.br\/quentes\/163882\/jb-e-lewandowski-trocam-farpas-novamente\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por mais anacr\u00f4nico que possa parecer, \u00e0s vezes nos deparamos com produ\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas reais de contextos contempor\u00e2neos, como o que se segue: &#8220;Ali\u00e1s, eu reafirmo o respeito que tenho por Vossa Excel\u00eancia e a admira\u00e7\u00e3o por vosso trabalho&#8221;. (Ricardo Lewandowski, em di\u00e1logo com outros ministros do STF, 2012) Ora, n\u00e3o estariam o pronome \u201cv\u00f3s\u201d e seus associados extintos do portugu\u00eas do Brasil? Por mais combalido, cambaleante e desaparecido que o \u201cv\u00f3s\u201d esteja, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar resqu\u00edcios de sua exist\u00eancia por estas terras. Logo, a resposta que podemos confabular, antes de decretar a sua \u201cmorte\u201d, \u00e9 que o \u201cv\u00f3s\u201d, junto a seus pronomes associados e a suas conjuga\u00e7\u00f5es verbais, permanece existindo com um uso muito restrito e com fun\u00e7\u00f5es bem distintas da tradicional. Basta ir \u00e0 igreja, abrir uma B\u00edblia, assistir a um filme hist\u00f3rico ou frequentar locais de fala solene, que eventualmente voc\u00ea encontrar\u00e1 o pronome \u201cv\u00f3s\u201d. Para os brasileiros, ele soa antigo, formal ou at\u00e9 estranho, mas merece o respeito que uma bela rel\u00edquia antiga pode ter. O que \u00e9 o pronome \u201cv\u00f3s\u201d? \u201cV\u00f3s\u201d \u00e9 o pronome pessoal de segunda pessoa do plural, equivalente a \u201cvoc\u00eas\u201d. Na gram\u00e1tica tradicional, ele exige verbos conjugados com desin\u00eancias espec\u00edficas: Esse sistema ainda \u00e9 ensinado em tabelas completas de conjuga\u00e7\u00e3o verbal, mas n\u00e3o corresponde ao uso cotidiano do portugu\u00eas brasileiro. Talvez, por esse motivo, o paradigma verbal do \u201cv\u00f3s\u201d n\u00e3o apare\u00e7a nos comp\u00eandios de \u201cPortugu\u00eas para Estrangeiros\u201d e \u00e9 cada vez menos enfatizado no ensino de portugu\u00eas para falantes nativos. Ao longo dos s\u00e9culos, o portugu\u00eas falado no Brasil passou por uma forte simplifica\u00e7\u00e3o do sistema pronominal. O pronome \u201cvoc\u00eas\u201d substituiu quase totalmente o \u201cv\u00f3s\u201d, e com ele veio tamb\u00e9m a conjuga\u00e7\u00e3o de terceira pessoa: Na l\u00edngua falada, o \u201cv\u00f3s\u201d praticamente desapareceu. Ele n\u00e3o \u00e9 usado em conversas informais, na m\u00eddia cotidiana ou na escrita comum. O que faz com que muitos falantes sequer reconhe\u00e7am suas formas verbais. Onde o \u201cv\u00f3s\u201d ainda aparece Apesar de incomum, o pronome \u201cv\u00f3s\u201d n\u00e3o sumiu completamente. Ele sobrevive em alguns contextos espec\u00edficos: 1. Linguagem religiosa Este \u00e9 o ambiente mais comum do \u201cv\u00f3s\u201d no Brasil. Textos b\u00edblicos, ora\u00e7\u00f5es e liturgias frequentemente mant\u00eam esse pronome: Aqui, o \u201cv\u00f3s\u201d contribui para um tom solene e tradicional. 2. Linguagem jur\u00eddica e solene Em contextos formais ou cerimoniais, o \u201cv\u00f3s\u201d pode aparecer para criar efeito de eleva\u00e7\u00e3o: Esse uso \u00e9 estil\u00edstico, n\u00e3o natural da fala cotidiana. 3. Literatura e recria\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica Autores podem usar \u201cv\u00f3s\u201d para simular \u00e9pocas antigas ou estilos cl\u00e1ssicos: Nesse caso, o pronome funciona como recurso expressivo. \u201cV\u00f3s\u201d e \u201cvos\u201d: n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa Embora ambos sejam raros, \u00e9 mais frequente ouvir o \u201cvos\u201d (pronome obl\u00edquo) do que o \u201cv\u00f3s\u201d (pronome reto). Constru\u00e7\u00f5es com o pronome de complemento ainda ocorrem de modo ocasional: \u201ceu vos digo\u201d, \u201centreguei-vos\u201d, \u201cDeus vos aben\u00e7oe\u201d etc. Isso mostra que partes do sistema podem sobreviver separadamente. Pronome pessoal reto Pronome pessoal obl\u00edquo Pronome possessivo (fun\u00e7\u00e3o de sujeito) (fun\u00e7\u00e3o de complemento) (fun\u00e7\u00e3o adnominal) v\u00f3s vos, convosco vosso, vossa, vossos, vossas O \u201cv\u00f3s\u201d morreu? N\u00e3o exatamente. Ele n\u00e3o morreu, mas mudou de fun\u00e7\u00e3o. Hoje, no portugu\u00eas brasileiro, o \u201cv\u00f3s\u201d: Em termos lingu\u00edsticos, dizemos que ele se tornou um pronome arcaizante, usado para produzir efeito de tradi\u00e7\u00e3o ou formalidade. Veja exemplos contempor\u00e2neos em nossa m\u00fasica: \u201cDai-me uma dorQue sirva para eu acordarDai-me outra cor, dai-me um amor, dai-me uma dor\u201d &nbsp; \u201cQue \u00e9 tapete de serpente que d\u00e3o pra n\u00f3s pisarAndai com passo firme que \u00e9 pra n\u00e3o bambear\u201d &nbsp; (verbo \u201cdar\u201d conjugado no paradigma do \u201cv\u00f3s\u201d \u2013 segunda pessoa do plural) Letra da can\u00e7\u00e3o \u201cDuas Cores\u201d, do grupo pernambucano Momboj\u00f3. (Verbo \u201candar\u201d conjugado no paradigma do \u201cv\u00f3s\u201d \u2013 segunda pessoa do plural) Letra da can\u00e7\u00e3o \u201cValente\u201d, da cantora paulistana MC Tha. O pronome \u201cv\u00f3s\u201d \u00e9 um excelente exemplo de como a l\u00edngua muda com o tempo. Antes comum, hoje ele ocupa um espa\u00e7o restrito, ligado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0 literatura. Mesmo assim, continua presente no imagin\u00e1rio lingu\u00edstico dos falantes e na gram\u00e1tica normativa. Assim, quando ouvimos \u201cv\u00f3s sois\u201d, n\u00e3o estamos diante de um erro nem de algo totalmente ultrapassado, mas sim de uma pe\u00e7a hist\u00f3rica viva do portugu\u00eas, que ainda resiste em certos contextos. E quem sabe? Em textos criativos, discursos solenes ou brincadeiras lingu\u00edsticas, talvez ainda possamos dizer: \u201cV\u00f3s ainda tendes lugar no portugu\u00eas brasileiro.\u201d \u201cE que este conte\u00fado vos agrade!\u201d Algumas Fontes Evanildo Bechara \u2014 Moderna Gram\u00e1tica Portuguesa Celso Cunha e Lindley Cintra \u2014 Nova Gram\u00e1tica do Portugu\u00eas Contempor\u00e2neo Fala do ministro Lewandowski:<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":651,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[4,7],"tags":[79,78,80,3,40,77],"class_list":["post-648","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-gramatica","category-sociedade","tag-arcaizante","tag-conjugacao","tag-contemporaneo","tag-gramatica","tag-historia","tag-pronome"],"aioseo_notices":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/648","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=648"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/648\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":659,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/648\/revisions\/659"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/651"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=648"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=648"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=648"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}