{"id":624,"date":"2025-11-30T19:00:36","date_gmt":"2025-11-30T22:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lexema.com.br\/?p=624"},"modified":"2025-11-30T19:17:41","modified_gmt":"2025-11-30T22:17:41","slug":"a-preposicao-tras-nao-significa-atras-nem-traz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/2025\/11\/30\/a-preposicao-tras-nao-significa-atras-nem-traz\/","title":{"rendered":"A preposi\u00e7\u00e3o \u201ctr\u00e1s\u201d n\u00e3o significa \u201catr\u00e1s\u201d nem \u201ctraz\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Diferentemente de outras preposi\u00e7\u00f5es mais produtivas (de, em, para, por&#8230;), o voc\u00e1bulo \u201ctr\u00e1s\u201d n\u00e3o costuma atuar de forma isolada na sintaxe atual. Seu funcionamento permanece essencialmente restrito a algumas estruturas fixas, o que faz com que muitos falantes o confundam com \u201ctraz\u201d ou \u201catr\u00e1s\u201d. Essa confus\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno muito frequente no portugu\u00eas brasileiro, principalmente devido \u00e0 sem\u00e2ntica do adv\u00e9rbio de lugar ou \u00e0 ortografia do verbo <em>trazer<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua origem, \u201ctr\u00e1s\u201d deriva do latim <em>trans<\/em>, que possu\u00eda significado ligado \u00e0 ideia de \u201cal\u00e9m de\u201d, \u201cpara l\u00e1 de\u201d. Com a evolu\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, essa palavra sofreu transforma\u00e7\u00f5es fon\u00e9ticas e sem\u00e2nticas at\u00e9 se estabilizar como um adv\u00e9rbio e locu\u00e7\u00f5es adverbiais.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o dicion\u00e1rio Houaiss, o significado de \u201ctr\u00e1s\u201d \u00e9:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>posterioridade no espa\u00e7o ou no tempo para depois de um ponto de refer\u00eancia.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com isso, a preposi\u00e7\u00e3o teria o mesmo sentido de \u201cap\u00f3s\u201d ou \u201catr\u00e1s de\u201d, estando em desuso no portugu\u00eas atual, embora esse sentido ainda resista na composi\u00e7\u00e3o de algumas palavras historicamente marcadas, como \u201cTr\u00e1s-os-Montes\u201d e \u201ctrasanteontem\u201d.  <\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o que prevalece s\u00e3o as formas locucionais de sentido similar ao adverbio <em>atr\u00e1s<\/em>. Veja algumas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Locu\u00e7\u00f5es adverbiais<\/strong> &#8211; \u201cde tr\u00e1s\u201d, \u201cpara tr\u00e1s\u201d, \u201cpor tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Exemplo: \u201ceu viajei no vag\u00e3o de tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Locu\u00e7\u00f5es prepositivas<\/strong> &#8211; \u201cde tr\u00e1s de\u201d, \u201cpor tr\u00e1s de\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Exemplos: \u201cO gato saiu de tr\u00e1s da coluna\u201d; &#8220;Por tr\u00e1s de um grande homem, sempre existe uma grande mulher&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A confus\u00e3o entre \u201ctr\u00e1s\u201d e \u201ctraz\u201d refere-se apenas \u00e0 ortografia, pois n\u00e3o h\u00e1 o que se confundir na sem\u00e2ntica: \u201ctraz\u201d \u00e9 flex\u00e3o do verbo \u201ctrazer\u201d, que indica o transportar de alguma coisa, como em \u201cele traz o livro consigo\u201d. Essa confus\u00e3o surge porque, na fala, ambos os voc\u00e1bulos s\u00e3o hom\u00f3fonos para grande parte dos brasileiros. Em termos pr\u00e1ticos, uma estrat\u00e9gia simples consiste em tentar substituir a palavra por \u201cleva\u201d; se a frase continuar coerente, trata-se de \u201ctraz\u201d; caso contr\u00e1rio, trata-se de \u201ctr\u00e1s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a preposi\u00e7\u00e3o \u201ctr\u00e1s\u201d, embora discreta no cotidiano, continua desempenhando papel relevante na l\u00edngua portuguesa atual, servindo como testemunho vivo da hist\u00f3ria e das nuances do nosso idioma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Prof. Daniel Costa J\u00fanior<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"512\" src=\"http:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-295\" style=\"width:73px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3.png 512w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-300x300.png 300w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-150x150.png 150w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-270x270.png 270w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-192x192.png 192w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-180x180.png 180w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-32x32.png 32w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias de base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BECHARA, Evanildo.&nbsp;<em>Moderna Gram\u00e1tica Portuguesa<\/em><strong>:<\/strong>&nbsp;38 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>HOUAISS, Ant\u00f4nio; VILLAR, Mauro de Salles; MELLO FRANCO, Francisco Manoel de.&nbsp;<em>Dicion\u00e1rio Houaiss da l\u00edngua portuguesa<\/em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>PESTANA, Gilda. A classe gramatical e o uso de tr\u00e1s. In: <em>Ciberd\u00favidas da L\u00edngua Portuguesa<\/em>. Lisboa: Instituto Universit\u00e1rio de Lisboa, 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diferentemente de outras preposi\u00e7\u00f5es mais produtivas (de, em, para, por&#8230;), o voc\u00e1bulo \u201ctr\u00e1s\u201d n\u00e3o costuma atuar de forma isolada na sintaxe atual. Seu funcionamento permanece essencialmente restrito a algumas estruturas fixas, o que faz com que muitos falantes o confundam com \u201ctraz\u201d ou \u201catr\u00e1s\u201d. Essa confus\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno muito frequente no portugu\u00eas brasileiro, principalmente devido \u00e0 sem\u00e2ntica do adv\u00e9rbio de lugar ou \u00e0 ortografia do verbo trazer. Em sua origem, \u201ctr\u00e1s\u201d deriva do latim trans, que possu\u00eda significado ligado \u00e0 ideia de \u201cal\u00e9m de\u201d, \u201cpara l\u00e1 de\u201d. Com a evolu\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, essa palavra sofreu transforma\u00e7\u00f5es fon\u00e9ticas e sem\u00e2nticas at\u00e9 se estabilizar como um adv\u00e9rbio e locu\u00e7\u00f5es adverbiais. De acordo com o dicion\u00e1rio Houaiss, o significado de \u201ctr\u00e1s\u201d \u00e9: posterioridade no espa\u00e7o ou no tempo para depois de um ponto de refer\u00eancia. Com isso, a preposi\u00e7\u00e3o teria o mesmo sentido de \u201cap\u00f3s\u201d ou \u201catr\u00e1s de\u201d, estando em desuso no portugu\u00eas atual, embora esse sentido ainda resista na composi\u00e7\u00e3o de algumas palavras historicamente marcadas, como \u201cTr\u00e1s-os-Montes\u201d e \u201ctrasanteontem\u201d. Contudo, o que prevalece s\u00e3o as formas locucionais de sentido similar ao adverbio atr\u00e1s. Veja algumas. Locu\u00e7\u00f5es adverbiais &#8211; \u201cde tr\u00e1s\u201d, \u201cpara tr\u00e1s\u201d, \u201cpor tr\u00e1s\u201d. Exemplo: \u201ceu viajei no vag\u00e3o de tr\u00e1s\u201d. Locu\u00e7\u00f5es prepositivas &#8211; \u201cde tr\u00e1s de\u201d, \u201cpor tr\u00e1s de\u201d. Exemplos: \u201cO gato saiu de tr\u00e1s da coluna\u201d; &#8220;Por tr\u00e1s de um grande homem, sempre existe uma grande mulher&#8221;. A confus\u00e3o entre \u201ctr\u00e1s\u201d e \u201ctraz\u201d refere-se apenas \u00e0 ortografia, pois n\u00e3o h\u00e1 o que se confundir na sem\u00e2ntica: \u201ctraz\u201d \u00e9 flex\u00e3o do verbo \u201ctrazer\u201d, que indica o transportar de alguma coisa, como em \u201cele traz o livro consigo\u201d. Essa confus\u00e3o surge porque, na fala, ambos os voc\u00e1bulos s\u00e3o hom\u00f3fonos para grande parte dos brasileiros. Em termos pr\u00e1ticos, uma estrat\u00e9gia simples consiste em tentar substituir a palavra por \u201cleva\u201d; se a frase continuar coerente, trata-se de \u201ctraz\u201d; caso contr\u00e1rio, trata-se de \u201ctr\u00e1s\u201d. Assim, a preposi\u00e7\u00e3o \u201ctr\u00e1s\u201d, embora discreta no cotidiano, continua desempenhando papel relevante na l\u00edngua portuguesa atual, servindo como testemunho vivo da hist\u00f3ria e das nuances do nosso idioma. Prof. Daniel Costa J\u00fanior Refer\u00eancias de base BECHARA, Evanildo.&nbsp;Moderna Gram\u00e1tica Portuguesa:&nbsp;38 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.&nbsp; HOUAISS, Ant\u00f4nio; VILLAR, Mauro de Salles; MELLO FRANCO, Francisco Manoel de.&nbsp;Dicion\u00e1rio Houaiss da l\u00edngua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. PESTANA, Gilda. A classe gramatical e o uso de tr\u00e1s. In: Ciberd\u00favidas da L\u00edngua Portuguesa. Lisboa: Instituto Universit\u00e1rio de Lisboa, 2023.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":625,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[3,25,5,62,63,46],"class_list":["post-624","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-gramatica","tag-gramatica","tag-morfologia","tag-portugues","tag-preposicao","tag-semantica","tag-sintaxe"],"aioseo_notices":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/624","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=624"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/624\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":630,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/624\/revisions\/630"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/625"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}