{"id":614,"date":"2025-08-30T15:42:03","date_gmt":"2025-08-30T18:42:03","guid":{"rendered":"https:\/\/lexema.com.br\/?p=614"},"modified":"2025-08-30T15:42:04","modified_gmt":"2025-08-30T18:42:04","slug":"leia-dois-contos-faceis-de-noite-na-taverna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/2025\/08\/30\/leia-dois-contos-faceis-de-noite-na-taverna\/","title":{"rendered":"Leia dois contos &#8216;f\u00e1ceis&#8217; de Noite na Taverna"},"content":{"rendered":"\n<p>Sabe-se que adolescentes costumam adorar hist\u00f3rias de suspense, terror e mist\u00e9rio. Pensando nisso, desafiei-me a trabalhar alguns contos de tem\u00e1tica sombria e g\u00f3tica nas aulas de l\u00edngua portuguesa do Ensino M\u00e9dio. O objetivo seria introduzir o interesse por autores can\u00f4nicos da literatura brasileira, considerando a predisposi\u00e7\u00e3o a hist\u00f3rias sombrias e g\u00f3ticas, que jovens geralmente possuem.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando alguns profissionais desejam fugir de nomes da literatura universal \u2013 tais como Edgar Allan Poe, Bram Stoker, Lovecraft, Lord Byron, Baudelaire \u2013 para focarem-se em nomes da l\u00edngua vern\u00e1cula, \u00e9 frequente a recorr\u00eancia a dois principais autores brasileiros: \u00c1lvares de Azevedo, na prosa, e Augusto dos Anjos, na poesia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabendo que <em>Noite na taverna<\/em>, de \u00c1lvares de Azevedo, \u00e9 a obra de refer\u00eancia no que se refere \u00e0 prosa g\u00f3tica e obscura em solo tupiniquim, surge a seguinte quest\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como abordar uma leitura importante para os vestibulares dos alunos, mas evitando as partes t\u00e3o pol\u00eamicas? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma obra recheada de orgias, bebedeiras, prostitui\u00e7\u00e3o, necrofilia e canibalismo precisa realmente de algum cuidado ao ser abordada. Caso contr\u00e1rio, pareceria um incentivo a essas pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Consciente do problema, logo se me ensejou a tarefa de reavaliar o livro oitocentista. Em cuja reavalia\u00e7\u00e3o, localizei dois contos, a meu ver, que parecem relativamente seguros de serem lidos no Ensino M\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro deles apresentarei a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Gennaro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Atualiza\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica de Daniel Costa J\u00fanior (2022)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Meurs ou tue!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>CORNEILLE<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gennaro, dormes, ou embebes-te no sabor do ultimo trago do vinho, da \u00faltima fuma\u00e7a do teu cachimbo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o: quando contavas tua historia, lembrava-me uma folha da vida, folha seca e avermelhada como as do outono, e que o vento varreu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Uma historia?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sim: e uma das minhas historias: sabes, Bertram, eu sou pintor, e uma lembran\u00e7a triste essa que vou revelar, porque e a historia de um velho e de duas mulheres, belas como duas vis\u00f5es de luz.<\/p>\n\n\n\n<p>Godofredo Walsh era um desses velhos sublimes, em cujas cabe\u00e7as as c\u00e3s semelham o diadema prateado do g\u00eanio. Velho j\u00e1, casara em segundas n\u00fapcias com uma beleza de vinte anos. Era pintor: diziam uns que este casamento fora um amor art\u00edstico por aquela beleza Romana, como que feita ao molde das belezas antigas \u2014outros criam-no compaix\u00e3o pela pobre mo\u00e7a que vivia de servir de modelo. O fato \u00e9 que ele a queria como filha \u2014 como Laura, a filha \u00fanica de seu primeiro casamento \u2014Laura, corada como uma rosa, e loira como um anjo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu era nesse tempo mo\u00e7o era aprendiz de pintura em casa de Godofredo. Eu era lindo ent\u00e3o! Que trinta anos l\u00e1 v\u00e3o! Que ainda os cabelos e as faces me n\u00e3o haviam desbotado como nesses longos quarenta e dois anos de vida! Eu era aquele tipo de mancebo ainda puro do ressumbrar infantil, pensativo e melanc\u00f3lico como o Rafael se retratou no quadro da galeria Barberini. Eu tinha quase a idade da mulher do mestre. \u2014 Nauza tinha vinte \u2014 e eu tinha dezoito anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Amei-a, mas meu amor era puro como meus sonhos de dezoito anos. Nauza tamb\u00e9m me amava: era um sentir t\u00e3o puro! Era uma emo\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria e perfumosa como as primaveras cheias de flores e de brisas que nos embalavam aos c\u00e9us da It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como eu o disse \u2014 o mestre tinha uma filha chamada Laura. Era uma mo\u00e7a p\u00e1lida, de cabelos castanhos e olhos azulados; sua tez era branca, e s\u00f3 \u00e0s vezes, quando o pejo a incendia, duas rosas lhe avermelhavam a face e se destacavam no fundo de m\u00e1rmore. Laura parecia querer-me como a um irm\u00e3o&#8230; Seus risos&#8230; seus beijos de crian\u00e7a de quinze anos eram s\u00f3 para mim. \u00c0 noite, quando eu ia deitar-me, ao passar pelo corredor escuro com minha l\u00e2mpada, uma sombra me apagava a luz e um beijo me pousava nas faces, nas trevas.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas noites foi assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma manh\u00e3 \u2014 eu dormia ainda \u2014 o mestre sa\u00edra, e Nauza fora \u00e0 igreja \u2014quando Laura entrou no meu quarto e fechou a porta: deitou-se a meu lado. Acordei \u2014nos bra\u00e7os dela.<\/p>\n\n\n\n<p>O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza, ainda inocente, o seio seminu de uma donzela a bater sobre o meu: isso tudo ao despertar dos sonhos alvos da madrugada, me enlouqueceu&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as manhas Laura vinha a meu quarto&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas meses passaram assim. Um dia entrou ela no meu quarto e disse-me:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gennaro, estou desonrada para sempre&#8230; A princ\u00edpio eu quis-me iludir \u2014 j\u00e1 n\u00e3o o posso \u2014 estou de esperan\u00e7as&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Um raio que me ca\u00edsse aos p\u00e9s me assustaria tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E preciso que cases comigo \u2014 pai, ouves, Gennaro?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu calei-me.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o me amas ent\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Calei-me ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oh! Gennaro, Gennaro!<\/p>\n\n\n\n<p>E caiu no meu ombro desfeita em solu\u00e7os. Carreguei-a assim fria e fora de si para seu quarto.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca mais tornou a falar-me em casamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Que havia de eu fazer? Contar tudo ao pai e pedi-la em casamento? Fora uma loucura&#8230; Ele me mataria e a ela: ou pelo menos me expulsaria de sua casa&#8230; E Nauza? Cada vez eu a amava mais. Era uma luta terr\u00edvel essa que se travava entre o dever e o amor, e entre o dever e o remorso.<\/p>\n\n\n\n<p>Laura n\u00e3o me falara mais. Seu sorriso era frio: cada dia tornava-se mais p\u00e1lida, mas a gravidez n\u00e3o crescia, antes mais nenhum sinal se lhe notava..<\/p>\n\n\n\n<p>O velho levava as noites passeando no escuro. J\u00e1 n\u00e3o pintava. Vendo a filha que morria aos sons secretos de uma harmonia de morte, que empalidecia cada vez mais, o mis\u00e9rrimo arrancava as c\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu contudo n\u00e3o esquecera Nauza, nem ela se esquecia de mim. Meu amor era sempre o mesmo: eram sempre noites de esperan\u00e7a e de sede que me banhavam de l\u00e1grimas o travesseiro. S\u00f3 \u00e0s vezes a sombra de um remorso me passava, mas a imagem dela dissipava todas essas n\u00e9voas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma noite&#8230; foi horr\u00edvel&#8230; vieram chamar-me: Laura morria. Na febre murmurava meu nome e palavras que ningu\u00e9m podia reter, t\u00e3o apressadas e confusas lhe soavam. Entrei no quarto dela: a doente conheceu-me. Ergueu-se branca, com a face \u00famida de um suor copioso: chamou-me. Sentei-me junto do leito dela. Apertou minha m\u00e3o nas suas m\u00e3os frias e murmurou em meus ouvidos:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gennaro, eu te perd\u00f4o: eu te perd\u00f4o tudo\u2026 Eras um infame. . . Morrerei. . . Fui uma louca. . . Morrerei&#8230; por tua causa&#8230; teu filho&#8230; o meu&#8230; vou v\u00ea-lo ainda&#8230; mas no c\u00e9u&#8230; Meu filho que matei&#8230; antes de nascer&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Deu um grito: estendeu convulsivamente os bra\u00e7os como para repelir uma id\u00e9ia, passou a m\u00e3o pelos l\u00e1bios como para enxugar as \u00faltimas gotas de uma bebida, estorceu-se no leito, l\u00edvida, fria, banhada de suor gelado, e arquejou. . . Era o \u00faltimo suspiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano todo se passou assim para mim. O velho parecia endoidecido. Todas as noites fechava-se no quarto onde morrera Laura: levava ai a noite toda em solid\u00e3o. Dormia? ah que n\u00e3o! Longas horas eu o escutei no sil\u00eancio arfar com \u00e2nsia, outras vezes afogar-se em solu\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois tudo emudecia: o silencio durava horas \u2014 o quarto era escuro: e depois as passadas pesadas do mestre se ouviam pelo quarto, mas vacilantes como de um b\u00eabedo que cambaleia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma noite eu disse a Nauza que a amava: ajoelhei-me junto dela, beijei-lhe as m\u00e3os, reguei seu colo de l\u00e1grimas. Ela voltou a face: eu cri que era desd\u00e9m, ergui-me.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o Nauza, tu n\u00e3o me amas, disse eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela permanecia com o rosto voltado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Adeus, pois: perdoai-me se vos ofendi: meu amor \u00e9 uma loucura, minha vida \u00e9 uma desesperan\u00e7a \u2014 o que me resta? Adeus, irei longe \u2014 longe daqui talvez ent\u00e3o eu possa chorar sem remorso.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomei-lhe a m\u00e3o e beijei-a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela deixou sua m\u00e3o nos meus l\u00e1bios.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ergui a cabe\u00e7a, eu a vi: ela estava debulhada em l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nauza \u2014 Nauza \u2014 uma palavra, tu me amas?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo o mais foi um sonho: a lua passava entre os vidros da janela aberta, e batia nela: nunca eu a vira t\u00e3o pura e divina!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>E as noites que o mestre passava solu\u00e7ando no leito vazio de sua filha, eu as passava no leito dele, nos bra\u00e7os de Nauza.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma noite houve um fato pasmoso.<\/p>\n\n\n\n<p>O mestre veio ao leito de Nauza. Gemia e chorava aquela voz cavernosa e rouca: tomou-me pelo bra\u00e7o com for\u00e7a acordou-me, e levou-me de rasto ao quarto de Laura.<\/p>\n\n\n\n<p>Atirou-me ao ch\u00e3o: fechou a porta. Uma l\u00e2mpada estava acesa no quarto defronte de um painel. Ergueu o len\u00e7ol que o cobria. \u2014 Era Laura moribunda! E eu macilento como ela tremia como um condenado. A mo\u00e7a com seus l\u00e1bios p\u00e1lidos murmurava no meu ouvido\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tremi de ver meu semblante t\u00e3o l\u00edvido na tela: e lembrei-me que naquele dia ao sair do quarto da morta, no espelho dela que estava ainda pendurado a janela, eu me horrorizara de ver-me cadav\u00e9rico&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me, e chorei l\u00e1grimas ardentes. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem o mandava, que era Laura que se erguia dentre os len\u00e7\u00f3is do seu leito, e me acendia o remorso, e no remorso me rasgava o peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Por Deus! Que foi uma agonia!<\/p>\n\n\n\n<p>No outro dia o mestre conversou comigo friamente. Lamentou a falta de sua filha \u2014 mas sem uma l\u00e1grima: sobre o passado na noite, nem palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as noites era a mesma tortura, todos os dias a mesma frieza.<\/p>\n\n\n\n<p>O mestre era son\u00e2mbulo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>E pois eu n\u00e3o me cri perdido\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo lembrei-me que uma noite, quando eu saia do quarto de Laura com o mestre, no escuro vira uma roupa branca passar-me por perto, ro\u00e7aram-me uns cabelos soltos, e nas l\u00e1jeas do corredor estalavam umas passadas t\u00edmidas de p\u00e9s nus Era Nauza que tudo vira e tudo ouvira, que se acordara e sentira minha falta no leito, que ouvira esses solu\u00e7os e gemidos, e correra para ver\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Uma noite, depois da ceia, o mestre Walsh tomou sua capa e uma lanterna, e chamou-me para acompanh\u00e1-lo. Tinha de sair fora da cidade e n\u00e3o queria ir s\u00f3. Sa\u00edmos juntos: a noite era escura e fria. O outono desfolhara as arvores e os primeiros sopros do inverno rugam nas folhas secas do ch\u00e3o. Caminhamos juntos muito tempo: cada vez mais nos entranh\u00e1vamos pelas montanhas, cada vez o caminho era mais solit\u00e1rio. O velho parou. Era na fralda de uma montanha. \u00c0 direita o rochedo se abria num trilho: \u00e0 esquerda as pedras soltas por nossos p\u00e9s a cada passada se despegavam e rolavam pelo despenhadeiro, e instantes depois se ouvia um som como de \u00e1gua onde cai um peso\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>A noite era escur\u00edssima. Apenas a lanterna alumiava o caminho tortuoso que segu\u00edamos. O velho lan\u00e7ou os olhos \u00e0 escurid\u00e3o do abismo e riu-se.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Espera-me ai, disse ele \u2014 j\u00e1 venho.<\/p>\n\n\n\n<p>Godofredo tomou a lanterna e seguiu para o cume da montanha: eu sentei-me no caminho a sua espera: vi aquela luz ora perder-se, ora reaparecer entre os arvoredos nos ziguezagues do caminho. Por fim vi-a parar. O velho bateu a porta de uma cabana: a porta abriu-se. Entrou. O que a\u00ed se passou nem o sei: quando a porta abriu-se de novo uma mulher l\u00edvida e desgrenhada apareceu com um facho na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta fechou-se. Alguns minutos depois o mestre estava comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>O velho assentou a lanterna num rochedo, despiu a capa e disse-me:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gennaro, quero contar-te uma hist\u00f3ria. E um crime, quero que sejas juiz dele. Um velho era casado com uma mo\u00e7a bela. De outras n\u00fapcias tinha uma filha bela tamb\u00e9m. Um aprendiz \u2014 um miser\u00e1vel que ele erguera da poeira, como o vento \u00e0s vezes ergue uma folha, mas que ele podia reduzir a ela quando quisesse\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estremeci, os olhares do velho pareciam ferir-me.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nunca ouviste essa hist\u00f3ria, meu bom Gennaro?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nunca \u2014 disse eu a custo e tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pois bem \u2014 esse infame desonrou o pobre velho: traiu-o como Judas ao Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mestre, perd\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Perd\u00e3o! E perdoou o malvado ao pobre cora\u00e7\u00e3o do velho?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Piedade!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E teve ele d\u00f3 da virgem, da desonra, da infanticida?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Perd\u00e3o! \u2014 e perdoou o malvado ao pobre cora\u00e7\u00e3o do velho?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Piedade!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E teve ele d\u00f3 da virgem, da desonra, da infanticida?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah! \u2014 gritei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que tens? Conheces o criminoso?<\/p>\n\n\n\n<p>A voz de esc\u00e1rnio dele me abafava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 V\u00eas, pois, Gennaro &#8212; disse ele mudando de tom \u2014, se houvesse um castigo pior que a morte, eu to daria. Olha esse despenhadeiro! \u00c9 medonho! se o visses de dia, teus olhos se escureceriam e ai rolarias talvez \u2014 de vertigem! \u00c9 um t\u00famulo seguro: e guardar\u00e1 o segredo, como um peito o punhal. S\u00f3 os corvos ir\u00e3o l\u00e1 ver-te, s\u00f3 os corvos e os vermes. E pois, se tens ainda no cora\u00e7\u00e3o maldito um remorso, reza tua ultima ora\u00e7\u00e3o: mas seja breve. O algoz espera a vitima: a hiena tem fome de cad\u00e1ver\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava ali pendente junto \u00e0 morte. Tinha s\u00f3 a escolher o suic\u00eddio ou ser assassinado. Matar o velho era imposs\u00edvel. Uma luta entre mim e ele fora insana. Ele era robusto, a sua estatura alta, seus bra\u00e7os musculosos me quebrariam como o vendaval rebenta um ramo seco. Demais, ele estava armado. Eu \u2014 eu era uma crian\u00e7a d\u00e9bil: ao meu primeiro passo ele me arrojaria da pedra em cujas bordas eu estava&#8230; S\u00f3 me restaria morrer com ele \u2014 arrast\u00e1-lo na minha queda. Mas para qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>E curvei-me no abismo: tudo era negro: o vento l\u00e1 gemia embaixo nos ramos desnudos, nas urzes, nos espinhais ressequidos, e a torrente l\u00e1 chocalhava no fundo escumando nas pedras.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tive medo. Ora\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as, tudo seria debalde.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Estou pronto \u2014 disse.<\/p>\n\n\n\n<p>O velho riu-se: infernal era aquele rir dos seus l\u00e1bios estalados de febre. S\u00f3 vi aquele riso. Depois foi uma vertigem\u2026 o ar que sufocava, um peso que me arrastava, como naqueles pesadelos em que se cai de uma torre e se fica preso ainda pela m\u00e3o, mas a m\u00e3o cansa, fraqueja, sua, esfria&#8230; Era horr\u00edvel: ramo a ramo, folha por folha os arbustos me estalavam nas m\u00e3os, as ra\u00edzes secas que saiam pelo despenhadeiro estalavam sobre meu peso e meu peito sangrava nos espinhais. A queda era muito r\u00e1pida\u2026 De repente n\u00e3o senti mais nada\u2026 Quando acordei estava junto a uma cabana de camponeses que me tinham apanhado junto da torrente, preso nos ramos de uma azinheira gigantesca que assombrava o rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Era depois de um dia e uma noite de del\u00edrios que eu acordara. Logo que sarei, uma id\u00e9ia me veio: ir ter com o mestre. Ao ver-me salvo assim daquela morte horr\u00edvel, pode ser que se apiedasse de mim, que me perdoasse, e ent\u00e3o eu seria seu escravo, seu c\u00e3o, tudo o que houvesse mais abjeto num homem que se humilha \u2014 tudo! \u2014 contanto que ele me perdoasse. Viver com aquele remorso me parecia imposs\u00edvel. Parti, pois: no caminho topei um punhal. Ergui-o: era o do mestre. Veio-me ent\u00e3o uma id\u00e9ia de vingan\u00e7a e de soberba. Ele quisera matar-me, ele tinha rido a minha agonia, e eu havia ir chorar-lhe ainda aos p\u00e9s para ele repelir-me ainda, cuspir-me nas faces, e amanh\u00e3 procurar outra vingan\u00e7a mais segura? Eu humilhar-me quando ele me tinha abatido! Os cabelos me arrepiaram na cabe\u00e7a, e suor frio me rolava pelo rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando cheguei \u00e0 casa do mestre achei-a fechada. Bati \u2014 n\u00e3o abriram. O jardim da casa dava para a rua: saltei o muro: tudo estava deserto e as portas que davam para ele estavam tamb\u00e9m fechadas. Uma delas era fraca: com pouco esfor\u00e7o arrombei-a. Ao estrondo da porta que caiu s\u00f3 o eco respondeu nas salas. Todas as janelas estavam fechadas e contudo era dia claro fora. Tudo estava escuro: nem uma lamparina acesa. Caminhei tateando ate a sala do pintor. Cheguei l\u00e1 \u2014 abri as janelas e a luz do dia derramou-se na sala deserta. Cheguei ent\u00e3o ao quarto de Nauza \u2014 abri a porta e um bafo pestilento corria da\u00ed. O raio da luz bateu em uma mesa. \u2014 Junto estava uma forma de mulher com a face na mesa, e os cabelos ca\u00eddos: atirado numa poltrona um vulto coberto com um capote. Entre eles um copo onde se depositara um res\u00edduo polvilhento. Ao p\u00e9 estava um frasco vazio. Depois eu o soube \u2014 a velha da cabana era uma mulher que vendia veneno: era ela de certo que o vendera, porque o p\u00f3 branco do copo parecia s\u00ea-lo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ergui os cabelos da mulher, levantei-lhe a cabe\u00e7a. Era Nauza, mas Nauza cad\u00e1ver, j\u00e1 desbotada pela podrid\u00e3o. N\u00e3o era aquela est\u00e1tua alv\u00edssima de outrora, as faces macias e colo de neve. Era um corpo amarelo\u2026 Levantei uma ponta da capa do outro \u2014 o corpo caiu de bru\u00e7os com a cabe\u00e7a para baixo \u2014 ressoou no pavimento o estalo do cr\u00e2nio. Era o velho \u2014 morto tamb\u00e9m e roxo e apodrecido: eu o vi \u2014 da boca lhe corria uma escuma esverdeada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Johann<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Atualiza\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica: Daniel Costa J\u00fanior (2022)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Pour quoi? c&#8217;est que mon coeur au milieu des d\u00e9lices<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>D&#8217;un souvenir jaloux constamment oppress\u00e9<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Froid au bonheur pr\u00e9sent, va chercher ses supplices<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Dans l&#8217;avenir et le pass\u00e9.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Alexandre Dumas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora a minha vez! Quero lan\u00e7ar tamb\u00e9m uma moeda em vossa urna: \u00e9 o cobre azinhavrado do mendigo: pobre esmola por certo!<\/p>\n\n\n\n<p>Era em Paris, num bilhar. N\u00e3o sei se o fogo do jogo me arrebatara, ou se o&nbsp;<em>kirsch<\/em>&nbsp;e o&nbsp;<em>cura\u00e7ao<\/em>&nbsp;me queimaram demais as ideias&#8230; Jogava contra mim um mo\u00e7o: chamava-se Artur.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma figura loura e mimosa como a de uma donzela. Rosa infantil lhe avermelhava as faces: mas era uma rosa de cor desfeita. Leve bu\u00e7o lhe sombreava o l\u00e1bio, e pelo oval do rosto uma penugem doirada lhe assomava como a felpa que rebu\u00e7a o p\u00eassego.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltava um ponto a meu advers\u00e1rio para ganhar. A mim, faltavam-me n\u00e3o sei quantos: sei s\u00f3 que eram muitos, e pois requeria-se um grande sangue frio, e muito esmero no jogar.<\/p>\n\n\n\n<p>Soltei a bola. Nessa ocasi\u00e3o o bilhar estremeceu\u2026 O mo\u00e7o loiro, voluntariamente ou n\u00e3o, se encostara ao bilhar&#8230; A bola desviou-se, mudou de rumo: com o desvio dela perdi&#8230; A raiva levou-me de vencida. Adiantei-me para ele. A meu olhar ardente o mancebo sacudiu os cabelos loiros e sorriu como de esc\u00e1rnio.<\/p>\n\n\n\n<p>Era demais! Caminhei para ele: ressoou uma bofetada. O mo\u00e7o convulso caminhou para mim com um punhal, mas nossos amigos nos sustiveram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso \u00e9 briga de marujo. O duelo, eis a luta dos homens de brio.<\/p>\n\n\n\n<p>O mo\u00e7o rasgou nos dentes uma luva e atirou-ma a cara. Era insulto por insulto; lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>Meia hora depois tomei-lhe a m\u00e3o com sangue frio e disse-lhe no ouvido:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vossas armas, senhor?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sab\u00ea-las-eis no lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vossas testemunhas?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A noite e minhas armas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A hora?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 J\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O lugar?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vireis comigo&#8230; Onde pararmos a\u00ed ser\u00e1 o lugar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bem, muito bem: estou pronto, vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dei-lhe o bra\u00e7o e sa\u00edmos. Ao ver-nos t\u00e3o frios a conversar creram uma satisfa\u00e7\u00e3o. Um dos assistentes contudo entendeu-nos.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou a n\u00f3s e disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Senhores, n\u00e3o h\u00e1 pois meio de conciliar-vos?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s sorrimos ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 uma crian\u00e7ada, tornou ele.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s n\u00e3o respondemos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se precisardes de uma testemunha, estou pronto.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s nos curvamos ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele entendeu-nos: viu que a vontade era firme: afastou-se.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s sa\u00edmos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br><br><br><\/p>\n\n\n\n<p>Um hotel estava aberto. O mo\u00e7o levou-me para dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Moro aqui, entrai, disse-me.<\/p>\n\n\n\n<p>Entramos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Senhor, disse ele, n\u00e3o h\u00e1 meio de paz entre n\u00f3s: um bofet\u00e3o e uma luva atirada \u00e0s faces de um homem saco n\u00f3doas que s\u00f3 o sangue lava. \u00c9 pois um duelo de morte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 De morte, repeti como um eco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pois bem: tenho no mundo s\u00f3 duas pessoas \u2014 minha m\u00e3e e&#8230; Esperei um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>O mo\u00e7o pediu papel, pena e tinta. Escreveu: as linhas eram poucas. Acabando a carta deu-ma a ler.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vede, n\u00e3o \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Artur, creio em v\u00f3s: n\u00e3o quero ler esse papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Repeli o papel. Artur fechou a carta, selou o lacre com um anel que trazia no dedo. Ao ver o anel uma l\u00e1grima correu-lhe na face e caiu sobre a carta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Senhor, sois um homem de honra. Se eu morrer, tomai esse anel: no meu bolso achareis uma carta: entregareis tudo a&#8230; Depois dir-vos-ei a quem&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Estais pronto? perguntei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o! antes de um de nos morrer e justo que brinde o moribundo ao \u00faltimo crep\u00fasculo da vida. N\u00e3o sejamos Abiss\u00ednios: demais, o sol no cin\u00e1brio do poente ainda e belo.<\/p>\n\n\n\n<p>O vinho do Reno correu em \u00e1guas de ouro nas ta\u00e7as de cristal verde. O mo\u00e7o ergueu-se.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Senhor, permita que eu fa\u00e7a uma sa\u00fade convosco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A quem?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 um mist\u00e9rio&#8230; \u00e9 uma mulher, porque o nome daquela que se apertou uma vez nos l\u00e1bios, a quem se ama, \u00e9 um segredo. N\u00e3o a fareis?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Seja como quiserdes, disse eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Batemos os copos. O mo\u00e7o chegou \u00e0 janela. Derramou algumas gotas de vinho do Reno \u00e0 noite. Bebemos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Um de n\u00f3s fez a sua \u00faltima sa\u00fade, disse ele. Boa noite para um de nos&#8230; bom leito e sonos sossegados para o filho da terra!<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a uma secret\u00e1ria, abriu-a: tirou duas pistolas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isto \u00e9 mais breve, disse ele. Pela espada \u00e9 mais longa a agonia. Uma delas esta carregada, a outra n\u00e3o. Tir\u00e1-las-emos \u00e0 sorte. Atiraremos \u00e0 queima-roupa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 um assassinato.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o dissemos que era um duelo de morte, que um de nos devia morrer?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tendes raz\u00e3o. Mas dizei-me: onde iremos?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vinde comigo. Na primeira esquina deserta dos arrabaldes. Qualquer canto de rua \u00e9 bastante sombrio para dois homens dos quais um tem de matar o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 meia-noite est\u00e1vamos fora da cidade. Ele p\u00f4s as duas pistolas no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Escolhei, mas sem toc\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Escolhi.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora vamos, disse eu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esperai, tenho um pressentimento frio e uma voz suspirosa me geme no peito. Quero rezar&#8230; \u00e9 uma saudade por minha m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajoelhou-se. \u00c0 vista daquele mo\u00e7o de joelhos \u2014 talvez sobre um t\u00famulo \u2014 lembrei-me que eu tamb\u00e9m tinha m\u00e3e e uma irm\u00e3&#8230; e que eu as esquecia. Quanto a amantes, meus amores eram como a sede dos c\u00e3es das ruas: saciavam-se na \u00e1gua ou na lama. Eu s\u00f3 amara mulheres perdidas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 tempo, disse ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhamos frente a frente. As pistolas se encostaram nos peitos. As espoletas estalaram, um tiro s\u00f3 estrondou, ele caiu quase morto&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tomai, murmurou o moribundo e acenava-me para o bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Atirei-me a ele. Estava afogado em sangue. Estrebuchou tr\u00eas vezes e ficou frio&#8230; Tirei-lhe o anel da m\u00e3o. Meti-lhe a m\u00e3o no bolso como ele dissera. Achei dois bilhetes.<\/p>\n\n\n\n<p>A noite era escura: n\u00e3o pude l\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltei \u00e0 cidade. \u00c0 luz ba\u00e7a do primeiro lampi\u00e3o vi os dois bilhetes. O primeiro era a carta para sua m\u00e3e. O outro estava aberto, li:<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cA uma hora da noite na rua de&#8230; n\u00b0 60, 1\u00b0 andar, achar\u00e1s a porta aberta.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tua G<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha outra assinatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o soube o que pensar. Tive uma ideia: era uma inf\u00e2mia.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui \u00e0 entrevista. Era no escuro. Tinha no dedo o anel que trouxera do morto&#8230; Senti uma m\u00e3ozinha acetinada tomar-me pela m\u00e3o, subi. A porta fechou-se. Foi uma noite deliciosa! A amante do loiro era virgem! Pobre Romeu! Pobre Julieta! Parece que essas duas crian\u00e7as levavam a noite em beijos infantis e em sonhos puros!<\/p>\n\n\n\n<p>(Johann encheu o copo: bebeu-o, mas estremeceu.)<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu ia sair, topei um vulto \u00e0 porta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Boa noite, cavalheiro&#8230; eu vos esperava h\u00e1 muito.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa voz pareceu-me conhecida. Por\u00e9m eu tinha a cabe\u00e7a desvairada&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o respondi: o caso era singular.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuei a descer, o vulto acompanhou-me. Quando chegamos \u00e0 porta vi luzir a folha de uma faca. Fiz um movimento e a lamina resvalou-me no ombro. A luta fez-se terr\u00edvel na escurid\u00e3o. Eram dois homens que se n\u00e3o conheciam, que n\u00e3o pensavam talvez se terem visto um dia \u00e0 luz, e que n\u00e3o haviam mais se ver porventura ambos vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>O punhal escapou-lhe das m\u00e3os, perdeu-se no escuro: subjuguei-o. Era um quadro infernal, um homem na escurid\u00e3o abafando a boca do outro com a m\u00e3o, sufocando-lhe a garganta com o joelho, e a outra m\u00e3o a tatear na sombra procurando um ferro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa ocasi\u00e3o senti uma dor horr\u00edvel: frio e dor me correram pela m\u00e3o. O homem morrera sufocado, e na agonia me enterrara os dentes pela carne. Foi a custo que desprendi a m\u00e3o sanguenta e descarnada da boca do cad\u00e1ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Ergui-me.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sair tropecei num objeto sonoro. Abaixei-me para ver o que era. Era uma lanterna furta-fogo. Quis ver quem era o homem. Ergui a l\u00e2mpada&#8230; O \u00faltimo clar\u00e3o dela banhou a cabe\u00e7a do defunto&#8230; e apagou-se&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o podia crer: era um sonho fant\u00e1stico toda aquela noite. Arrastei o cad\u00e1ver pelos ombros levei-o pela laje da cal\u00e7ada at\u00e9 ao lampi\u00e3o da rua, levantei-lhe os cabelos ensanguentados do rosto&#8230; (Um espasmo de medo contraiu horrivelmente a face do narrador&#8230; tomou o copo, foi beber&#8230; os dentes lhe batiam como de frio&#8230; o copo estalou-lhe nos l\u00e1bios).<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele homem \u2014 sabei-lo!?&#8230; era do sangue do meu sangue, era filho das entranhas de minha m\u00e3e como eu&#8230; era meu irm\u00e3o! Uma ideia passou ante meus olhos como um an\u00e1tema. Subi ansioso ao sobrado. Entrei. A moca desmaiara de susto ouvindo a luta. Tinha a face fria como o m\u00e1rmore. Os seios nus e virgens estavam parados e g\u00e9lidos como os de uma est\u00e1tua&#8230; A forma de neve eu a sentia meio nua entre os vestidos desfeitos, onde a inf\u00e2mia acelera a n\u00f3doa de uma flor perdida.<\/p>\n\n\n\n<p>Abri a janela, levei-a ate a\u00ed&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade que sou um maldito!<\/p>\n\n\n\n<p>Ol\u00e1, Archibald, dai-me um outro copo, enchei-o de&nbsp;<em>cognac<\/em>, enchei-o at\u00e9 a borda! Vede!&#8230; sinto frio, muito frio&#8230; tremo de calafrios e o suor me corre nas faces! Quero o fogo dos esp\u00edritos! a ard\u00eancia do c\u00e9rebro ao vapor que tonteia&#8230; quero esquecer!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que tens, Johann? tiritas como um velho centen\u00e1rio!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que tenho? o que tenho? N\u00e3o o vedes, pois? Era minha irm\u00e3!&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">___________<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabe-se que adolescentes costumam adorar hist\u00f3rias de suspense, terror e mist\u00e9rio. Pensando nisso, desafiei-me a trabalhar alguns contos de tem\u00e1tica sombria e g\u00f3tica nas aulas de l\u00edngua portuguesa do Ensino M\u00e9dio. O objetivo seria introduzir o interesse por autores can\u00f4nicos da literatura brasileira, considerando a predisposi\u00e7\u00e3o a hist\u00f3rias sombrias e g\u00f3ticas, que jovens geralmente possuem. Quando alguns profissionais desejam fugir de nomes da literatura universal \u2013 tais como Edgar Allan Poe, Bram Stoker, Lovecraft, Lord Byron, Baudelaire \u2013 para focarem-se em nomes da l\u00edngua vern\u00e1cula, \u00e9 frequente a recorr\u00eancia a dois principais autores brasileiros: \u00c1lvares de Azevedo, na prosa, e Augusto dos Anjos, na poesia. Sabendo que Noite na taverna, de \u00c1lvares de Azevedo, \u00e9 a obra de refer\u00eancia no que se refere \u00e0 prosa g\u00f3tica e obscura em solo tupiniquim, surge a seguinte quest\u00e3o: Como abordar uma leitura importante para os vestibulares dos alunos, mas evitando as partes t\u00e3o pol\u00eamicas? Uma obra recheada de orgias, bebedeiras, prostitui\u00e7\u00e3o, necrofilia e canibalismo precisa realmente de algum cuidado ao ser abordada. Caso contr\u00e1rio, pareceria um incentivo a essas pr\u00e1ticas. Consciente do problema, logo se me ensejou a tarefa de reavaliar o livro oitocentista. Em cuja reavalia\u00e7\u00e3o, localizei dois contos, a meu ver, que parecem relativamente seguros de serem lidos no Ensino M\u00e9dio. O primeiro deles apresentarei a seguir: Gennaro Atualiza\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica de Daniel Costa J\u00fanior (2022) Meurs ou tue! CORNEILLE \u2014 Gennaro, dormes, ou embebes-te no sabor do ultimo trago do vinho, da \u00faltima fuma\u00e7a do teu cachimbo? \u2014 N\u00e3o: quando contavas tua historia, lembrava-me uma folha da vida, folha seca e avermelhada como as do outono, e que o vento varreu. \u2014 Uma historia? \u2014 Sim: e uma das minhas historias: sabes, Bertram, eu sou pintor, e uma lembran\u00e7a triste essa que vou revelar, porque e a historia de um velho e de duas mulheres, belas como duas vis\u00f5es de luz. Godofredo Walsh era um desses velhos sublimes, em cujas cabe\u00e7as as c\u00e3s semelham o diadema prateado do g\u00eanio. Velho j\u00e1, casara em segundas n\u00fapcias com uma beleza de vinte anos. Era pintor: diziam uns que este casamento fora um amor art\u00edstico por aquela beleza Romana, como que feita ao molde das belezas antigas \u2014outros criam-no compaix\u00e3o pela pobre mo\u00e7a que vivia de servir de modelo. O fato \u00e9 que ele a queria como filha \u2014 como Laura, a filha \u00fanica de seu primeiro casamento \u2014Laura, corada como uma rosa, e loira como um anjo. Eu era nesse tempo mo\u00e7o era aprendiz de pintura em casa de Godofredo. Eu era lindo ent\u00e3o! Que trinta anos l\u00e1 v\u00e3o! Que ainda os cabelos e as faces me n\u00e3o haviam desbotado como nesses longos quarenta e dois anos de vida! Eu era aquele tipo de mancebo ainda puro do ressumbrar infantil, pensativo e melanc\u00f3lico como o Rafael se retratou no quadro da galeria Barberini. Eu tinha quase a idade da mulher do mestre. \u2014 Nauza tinha vinte \u2014 e eu tinha dezoito anos. Amei-a, mas meu amor era puro como meus sonhos de dezoito anos. Nauza tamb\u00e9m me amava: era um sentir t\u00e3o puro! Era uma emo\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria e perfumosa como as primaveras cheias de flores e de brisas que nos embalavam aos c\u00e9us da It\u00e1lia. Como eu o disse \u2014 o mestre tinha uma filha chamada Laura. Era uma mo\u00e7a p\u00e1lida, de cabelos castanhos e olhos azulados; sua tez era branca, e s\u00f3 \u00e0s vezes, quando o pejo a incendia, duas rosas lhe avermelhavam a face e se destacavam no fundo de m\u00e1rmore. Laura parecia querer-me como a um irm\u00e3o&#8230; Seus risos&#8230; seus beijos de crian\u00e7a de quinze anos eram s\u00f3 para mim. \u00c0 noite, quando eu ia deitar-me, ao passar pelo corredor escuro com minha l\u00e2mpada, uma sombra me apagava a luz e um beijo me pousava nas faces, nas trevas. Muitas noites foi assim. Uma manh\u00e3 \u2014 eu dormia ainda \u2014 o mestre sa\u00edra, e Nauza fora \u00e0 igreja \u2014quando Laura entrou no meu quarto e fechou a porta: deitou-se a meu lado. Acordei \u2014nos bra\u00e7os dela. O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza, ainda inocente, o seio seminu de uma donzela a bater sobre o meu: isso tudo ao despertar dos sonhos alvos da madrugada, me enlouqueceu&#8230; Todas as manhas Laura vinha a meu quarto&#8230; Tr\u00eas meses passaram assim. Um dia entrou ela no meu quarto e disse-me: \u2014 Gennaro, estou desonrada para sempre&#8230; A princ\u00edpio eu quis-me iludir \u2014 j\u00e1 n\u00e3o o posso \u2014 estou de esperan\u00e7as&#8230; Um raio que me ca\u00edsse aos p\u00e9s me assustaria tanto. \u2014 E preciso que cases comigo \u2014 pai, ouves, Gennaro? Eu calei-me. \u2014 N\u00e3o me amas ent\u00e3o? Calei-me ainda. \u2014 Oh! Gennaro, Gennaro! E caiu no meu ombro desfeita em solu\u00e7os. Carreguei-a assim fria e fora de si para seu quarto. Nunca mais tornou a falar-me em casamento. Que havia de eu fazer? Contar tudo ao pai e pedi-la em casamento? Fora uma loucura&#8230; Ele me mataria e a ela: ou pelo menos me expulsaria de sua casa&#8230; E Nauza? Cada vez eu a amava mais. Era uma luta terr\u00edvel essa que se travava entre o dever e o amor, e entre o dever e o remorso. Laura n\u00e3o me falara mais. Seu sorriso era frio: cada dia tornava-se mais p\u00e1lida, mas a gravidez n\u00e3o crescia, antes mais nenhum sinal se lhe notava.. O velho levava as noites passeando no escuro. J\u00e1 n\u00e3o pintava. Vendo a filha que morria aos sons secretos de uma harmonia de morte, que empalidecia cada vez mais, o mis\u00e9rrimo arrancava as c\u00e3s. Eu contudo n\u00e3o esquecera Nauza, nem ela se esquecia de mim. Meu amor era sempre o mesmo: eram sempre noites de esperan\u00e7a e de sede que me banhavam de l\u00e1grimas o travesseiro. S\u00f3 \u00e0s vezes a sombra de um remorso me passava, mas a imagem dela dissipava todas essas n\u00e9voas&#8230; Uma noite&#8230; foi horr\u00edvel&#8230; vieram chamar-me: Laura morria. Na febre murmurava meu nome e palavras que ningu\u00e9m podia reter, t\u00e3o apressadas e confusas lhe soavam. Entrei no quarto dela: a doente conheceu-me. Ergueu-se branca, com a face \u00famida de um suor copioso: chamou-me. Sentei-me junto do leito dela. Apertou minha m\u00e3o nas suas m\u00e3os frias e murmurou em meus ouvidos: \u2014 Gennaro, eu te perd\u00f4o: eu te perd\u00f4o tudo\u2026 Eras um infame. . . Morrerei. . . Fui uma louca. . . Morrerei&#8230; por tua causa&#8230; teu filho&#8230; o meu&#8230; vou v\u00ea-lo ainda&#8230; mas no c\u00e9u&#8230; Meu filho que matei&#8230; antes de nascer&#8230; Deu um grito: estendeu convulsivamente os bra\u00e7os como para repelir uma id\u00e9ia, passou a m\u00e3o pelos l\u00e1bios como para enxugar as \u00faltimas gotas de uma bebida, estorceu-se no leito, l\u00edvida, fria, banhada de suor gelado, e arquejou. . . Era o \u00faltimo suspiro. Um ano todo se passou assim para mim. O velho parecia endoidecido. Todas as noites fechava-se no quarto onde morrera Laura: levava ai a noite toda em solid\u00e3o. Dormia? ah que n\u00e3o! Longas horas eu o escutei no sil\u00eancio arfar com \u00e2nsia, outras vezes afogar-se em solu\u00e7os. Depois tudo emudecia: o silencio durava horas \u2014 o quarto era escuro: e depois as passadas pesadas do mestre se ouviam pelo quarto, mas vacilantes como de um b\u00eabedo que cambaleia. Uma noite eu disse a Nauza que a amava: ajoelhei-me junto dela, beijei-lhe as m\u00e3os, reguei seu colo de l\u00e1grimas. Ela voltou a face: eu cri que era desd\u00e9m, ergui-me. \u2014 Ent\u00e3o Nauza, tu n\u00e3o me amas, disse eu. Ela permanecia com o rosto voltado. \u2014 Adeus, pois: perdoai-me se vos ofendi: meu amor \u00e9 uma loucura, minha vida \u00e9 uma desesperan\u00e7a \u2014 o que me resta? Adeus, irei longe \u2014 longe daqui talvez ent\u00e3o eu possa chorar sem remorso. Tomei-lhe a m\u00e3o e beijei-a. Ela deixou sua m\u00e3o nos meus l\u00e1bios. Quando ergui a cabe\u00e7a, eu a vi: ela estava debulhada em l\u00e1grimas. \u2014 Nauza \u2014 Nauza \u2014 uma palavra, tu me amas? \u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026 Tudo o mais foi um sonho: a lua passava entre os vidros da janela aberta, e batia nela: nunca eu a vira t\u00e3o pura e divina! \u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026 E as noites que o mestre passava solu\u00e7ando no leito vazio de sua filha, eu as passava no leito dele, nos bra\u00e7os de Nauza. Uma noite houve um fato pasmoso. O mestre veio ao leito de Nauza. Gemia e chorava aquela voz cavernosa e rouca: tomou-me pelo bra\u00e7o com for\u00e7a acordou-me, e levou-me de rasto ao quarto de Laura. Atirou-me ao ch\u00e3o: fechou a porta. Uma l\u00e2mpada estava acesa no quarto defronte de um painel. Ergueu o len\u00e7ol que o cobria. \u2014 Era Laura moribunda! E eu macilento como ela tremia como um condenado. A mo\u00e7a com seus l\u00e1bios p\u00e1lidos murmurava no meu ouvido\u2026 Eu tremi de ver meu semblante t\u00e3o l\u00edvido na tela: e lembrei-me que naquele dia ao sair do quarto da morta, no espelho dela que estava ainda pendurado a janela, eu me horrorizara de ver-me cadav\u00e9rico&#8230; Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me, e chorei l\u00e1grimas ardentes. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem o mandava, que era Laura que se erguia dentre os len\u00e7\u00f3is do seu leito, e me acendia o remorso, e no remorso me rasgava o peito. Por Deus! Que foi uma agonia! No outro dia o mestre conversou comigo friamente. Lamentou a falta de sua filha \u2014 mas sem uma l\u00e1grima: sobre o passado na noite, nem palavra. Todas as noites era a mesma tortura, todos os dias a mesma frieza. O mestre era son\u00e2mbulo\u2026 E pois eu n\u00e3o me cri perdido\u2026 Contudo lembrei-me que uma noite, quando eu saia do quarto de Laura com o mestre, no escuro vira uma roupa branca passar-me por perto, ro\u00e7aram-me uns cabelos soltos, e nas l\u00e1jeas do corredor estalavam umas passadas t\u00edmidas de p\u00e9s nus Era Nauza que tudo vira e tudo ouvira, que se acordara e sentira minha falta no leito, que ouvira esses solu\u00e7os e gemidos, e correra para ver\u2026 \u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026 Uma noite, depois da ceia, o mestre Walsh tomou sua capa e uma lanterna, e chamou-me para acompanh\u00e1-lo. Tinha de sair fora da cidade e n\u00e3o queria ir s\u00f3. Sa\u00edmos juntos: a noite era escura e fria. O outono desfolhara as arvores e os primeiros sopros do inverno rugam nas folhas secas do ch\u00e3o. Caminhamos juntos muito tempo: cada vez mais nos entranh\u00e1vamos pelas montanhas, cada vez o caminho era mais solit\u00e1rio. O velho parou. Era na fralda de uma montanha. \u00c0 direita o rochedo se abria num trilho: \u00e0 esquerda as pedras soltas por nossos p\u00e9s a cada passada se despegavam e rolavam pelo despenhadeiro, e instantes depois se ouvia um som como de \u00e1gua onde cai um peso\u2026 A noite era escur\u00edssima. Apenas a lanterna alumiava o caminho tortuoso que segu\u00edamos. O velho lan\u00e7ou os olhos \u00e0 escurid\u00e3o do abismo e riu-se. \u2014 Espera-me ai, disse ele \u2014 j\u00e1 venho. Godofredo tomou a lanterna e seguiu para o cume da montanha: eu sentei-me no caminho a sua espera: vi aquela luz ora perder-se, ora reaparecer entre os arvoredos nos ziguezagues do caminho. Por fim vi-a parar. O velho bateu a porta de uma cabana: a porta abriu-se. Entrou. O que a\u00ed se passou nem o sei: quando a porta abriu-se de novo uma mulher l\u00edvida e desgrenhada apareceu com um facho na m\u00e3o. A porta fechou-se. Alguns minutos depois o mestre estava comigo. O velho assentou a lanterna num rochedo, despiu a capa e disse-me: \u2014 Gennaro, quero contar-te uma hist\u00f3ria. E um crime, quero que sejas juiz dele. Um velho era casado com uma mo\u00e7a bela. De outras n\u00fapcias tinha uma filha bela tamb\u00e9m. Um aprendiz \u2014 um miser\u00e1vel que ele erguera da poeira, como o vento \u00e0s vezes ergue uma folha, mas que ele podia reduzir a ela quando quisesse\u2026 Eu estremeci, os olhares do velho pareciam ferir-me. \u2014 Nunca ouviste essa hist\u00f3ria, meu bom Gennaro? \u2014 Nunca \u2014 disse eu a custo e tremendo. \u2014 Pois bem \u2014 esse infame desonrou o pobre velho: traiu-o como Judas ao Cristo. \u2014 Mestre, perd\u00e3o! \u2014 Perd\u00e3o! 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