{"id":441,"date":"2024-09-09T12:00:00","date_gmt":"2024-09-09T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lexema.com.br\/?p=441"},"modified":"2024-09-09T19:54:36","modified_gmt":"2024-09-09T22:54:36","slug":"a-forma-e-o-conteudo-das-resistencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/2024\/09\/09\/a-forma-e-o-conteudo-das-resistencias\/","title":{"rendered":"A forma e o conte\u00fado das resist\u00eancias"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c0s vezes parece retr\u00f3grado pensar em estrutura em pleno s\u00e9culo XXI, porquanto parece anacr\u00f4nica a heran\u00e7a saussuriana advinda dos t\u00e3o distantes mil e novecentos. A <em>parole<\/em> costumava ser preterida em lugar da <em>langue<\/em>, na dicotomia que se lhe comp\u00f5e, pois a dificuldade dos discursos envolvia uma transcend\u00eancia que ultrapassava a experimenta\u00e7\u00e3o dos dados. A teoria liter\u00e1ria j\u00e1 tentou alcan\u00e7ar a \u201cestrutura\u201d pela unidade exclusiva da presen\u00e7a textual, mas a leitura de versos, como \u201c[d]izem que olhei para tr\u00e1s [&#8230;] \/ Para n\u00e3o olhar mais para a nuca virtuosa \/ de meu marido Lot\u201d, de Wis\u0142awa Szymborska, \u00e9 o que insiste em nos apresentar a extrapola\u00e7\u00e3o do dado emp\u00edrico: a subjetividade.<\/p>\n\n\n\n<p>A interioridade subjetiva \u00e9 o alvo do lirismo, sem a qual n\u00e3o haveria a necessidade de distin\u00e7\u00e3o entre os g\u00eaneros l\u00edrico e \u00e9pico. E, a jun\u00e7\u00e3o entre as fun\u00e7\u00f5es emotiva e po\u00e9tica \u00e9 o que nos forneceria o padr\u00e3o jakobsoniano (2008) da forma, a que se corporifica nos poemas. Tem-se a padroniza\u00e7\u00e3o da forma aliada ao conte\u00fado, que oferece a todos o conforto cognitivo da tradi\u00e7\u00e3o est\u00e9tica \u2013 uma tradi\u00e7\u00e3o que o modernismo sublimou com suas experimenta\u00e7\u00f5es ousadas, por vezes beirando a insol\u00eancia, e que geraram uma nova tradi\u00e7\u00e3o desde ent\u00e3o, cujo car\u00e1ter Hamburguer (2007) nominou de \u201cantipoesia\u201d. Mas, deve haver uma forma para a tal antipo\u00e9tica, a forma a que t\u00e3o facilmente se inseriu Szymborska, se \u00e9 que h\u00e1 alguma facilidade nisto.<\/p>\n\n\n\n<p>Perceba-se que o equil\u00edbrio da forma, a servi\u00e7o do conte\u00fado, sempre foi uma grata recomenda\u00e7\u00e3o na arte po\u00e9tica. A exce\u00e7\u00e3o ocorre com os parnasianos e, por tabela, os simbolistas que desenvolveram a <em>arte pela arte<\/em>, uma esp\u00e9cie de exacerba\u00e7\u00e3o da forma pela qual o conte\u00fado era um mero detalhe. Baudelaire, mesmo sob anseios simbolistas, impulsiona a prosifica\u00e7\u00e3o da poesia num modelo em que o metro se vai perdendo, as rimas idem. Sendo esse um legado aprimorado pelos modernistas e p\u00f3s-modernistas diligentes em expressar \u201c[&#8230;] as \u2018coisas do modo como s\u00e3o\u2019 na linguagem das pessoas do modo como falam\u201d (HAMBURGUER, 2007, p. 369). O conte\u00fado passa a ter a primazia sobre a forma presente na superf\u00edcie po\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1976, Szymborska publica <em>\u017b<\/em><em>ona Lota<\/em>, poema intertextual \u00e0 passagem b\u00edblica da mulher de Lot. Nele, interessam o conte\u00fado e os impl\u00edcitos do n\u00e3o dito, aquilo que estaria subjacente ao direito que eu l\u00edrico n\u00e3o tem de olhar para tr\u00e1s. Se n\u00e3o fosse a materialidade dos versos, somente se perceberia a poesia pelo lirismo presente no fluxo de consci\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 metro fixo, n\u00e3o h\u00e1 rimas evidentes nas palavras finais da maioria dos versos, por exemplo, <em>curiosa<\/em> \/ <em>raz\u00f5es<\/em> \/ <em>prata<\/em> \/ <em>sand\u00e1lia<\/em> \/ <em>Lot<\/em>. H\u00e1 quem diga que n\u00e3o se pode chegar a conclus\u00f5es definitivas em poemas traduzidos. Que se veja, ent\u00e3o, o original em polaco. Mesmo que n\u00e3o saibamos a gram\u00e1tica da l\u00edngua, podemos perceber, mediante sua transcri\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica, que as rimas ainda n\u00e3o s\u00e3o percept\u00edveis: <em>ciekawo\u015bci<\/em> [\u02a8\u0311\u025b\u0307\u0303ka\u2019v\u0254\u0255\u02a8\u0311i] \/ <em>powody<\/em> [po\u2019v\u0254dy] \/ <em>srebra<\/em> [\u2018sr\u025bba] \/ <em>sanda\u0142a<\/em> [\u2018s\u00e3ndawa] \/ <em>kark<\/em> [kark] \/ Lota [\u2018l\u0254ta]. Haveria, no m\u00e1ximo, uma rima n\u00e3o soante, mas toante entre as parox\u00edtonas <em>ciekawo\u015bci<\/em> e <em>powody<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Realmente, o conte\u00fado de <em>\u017b<\/em><em>ona Lota<\/em> \u00e9 o que nos toca. \u00c9 a dor em representar a insignific\u00e2ncia do g\u00eanero, dosada com uma mescla de ingenuidade e fina ironia, o que faz o leitor captar a inoc\u00eancia actante dos injusti\u00e7ados. O eu l\u00edrico feminino aponta, logo no verso inicial, o primeiro motivo da a\u00e7\u00e3o de olhar para tr\u00e1s: a curiosidade. Sim, a cl\u00e1ssica nega\u00e7\u00e3o do saber imposta \u00e0s mulheres, que remonta \u00e0 primeira mulher do mito judaico-crist\u00e3o, aquela que queria apenas provar do fruto do conhecimento no para\u00edso. Ainda que seja curiosidade em saber, o eu l\u00edrico lista uma s\u00e9rie de motiva\u00e7\u00f5es com diferentes graus de intencionalidade, algumas com pouca inten\u00e7\u00e3o, \u201c[&#8230;] um vento bateu, \/ despenteou meu cabelo\u201d, outras que revelam maior intuito, \u201c[p]ela desobedi\u00eancia dos mansos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A linguagem dos poemas \u00e9 bastante simples, mas n\u00e3o simpl\u00f3ria. Como dizia o narrador de <em>A hora da estrela<\/em>: \u201cQue ningu\u00e9m se engane, s\u00f3 consigo a simplicidade atrav\u00e9s de muito trabalho\u201d (LISPECTOR, 1995, p. 25). A simplicidade \u00e9 um objetivo que exige trabalho quase bra\u00e7al, muita minera\u00e7\u00e3o e lapida\u00e7\u00e3o, e o ato de n\u00e3o se deixar envolver pela pompa dos lexemas, nem pelo anseio do uso de palavras e desin\u00eancias ex\u00f3ticas. A linguagem simplificada, o metro simplificado, as rimas quase impercept\u00edveis e inexistentes tornaram-se a forma da poesia buscada pelos poetas dos tempos pr\u00f3ximos ao nosso. Visivelmente, \u00e9 uma tend\u00eancia erudita, j\u00e1 que os poetas do povo mant\u00eam-se sob o metro e as rimas, os repentistas, os cordelistas, os <em>rappers<\/em> e os <em>funkeiros<\/em>. Apenas nesses casos, a musicalidade da fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica parece predominar como um fen\u00f4meno das massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o t\u00edtulo deste microensaio refere-se \u00e0 forma das resist\u00eancias, n\u00e3o \u00e9 gratuita a escolha lexical que substantiva o ato de resistir. Note-se que n\u00e3o se quer ressaltar a \u201cresili\u00eancia\u201d, que adv\u00e9m da l\u00edngua inglesa e que \u00e9 t\u00e3o propagada no vocabul\u00e1rio dos treinadores motivacionais qu\u00e2nticos. Fala-se aqui da boa e velha \u201cresist\u00eancia\u201d, presente h\u00e1 mais de seis s\u00e9culos no l\u00e9xico do portugu\u00eas, a mesma que Clarissa Comin associa \u00e0 poesia que resiste: \u201cnas m\u00e3os e nas gargantas dos que foram espoliados de seu modo de vida, [..] tornou-se arma pol\u00edtica e panaceia contra o sil\u00eancio imposto\u201d (COMIN, 2017, p. 162-3).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A resist\u00eancia presente nos fr\u00e1geis \u00e9 similar aos excertos do poema drummondiano <em>A flor e a n\u00e1usea<\/em>: \u201cPosso, sem armas, revoltar-me?\u201d, \u201cTodos os homens voltam para casa. \/ Est\u00e3o menos livres mas levam jornais\u201d. Nos versos, h\u00e1 a dor da submiss\u00e3o e da impot\u00eancia, tal como pesa em <em>\u017b<\/em><em>ona Lota<\/em> outros sistemas de opress\u00e3o. Drummond e Szymborska lan\u00e7am pistas de suas viv\u00eancias extratextuais no plano intratextual, ambos estiveram sob regimes totalit\u00e1rios, embora incida sobre a polonesa os encargos hist\u00f3ricos do g\u00eanero feminino. Ambos selecionam, na dor, a alegria das pequenas coisas: em Szymborska, o vento levanta o vestido da mulher e ela teve a \u201cimpress\u00e3o de que me viam dos muros de Sodoma \/ e ca\u00edam na risada\u201d; em Drummond, uma flor nasceu na rua e rompeu o asfalto, a tal flor \u201c[\u00e9] feia. Mas \u00e9 realmente uma flor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De modo literal, a resist\u00eancia diz respeito \u00e0 capacidade de um corpo reagir a outro corpo com imobilidade. Metaforicamente, o conceito transp\u00f5e-se aos corpos humanos, sendo um lirismo emotivo que ultrapassa o plano po\u00e9tico e invade o plano da prosa. Muitos leitores lembram o peso social e familiar que o pai do narrador de <em>A terceira margem do rio<\/em> sentiu, ao ponto de construir para si uma canoa e isolar seu pr\u00f3prio corpo, a viver o resto dos dias num rio. N\u00e3o h\u00e1 outra forma de ver isso, sen\u00e3o \u201c[p]ela desobedi\u00eancia dos mansos\u201d, como se declara em <em>\u017b<\/em><em>ona Lota.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os sistemas sociais e suas rela\u00e7\u00f5es de poder s\u00e3o elementos abstratos que influem no plano f\u00edsico do corpo. De outro modo, como explicar a dram\u00e1tica conclus\u00e3o em que o corpo assume a reg\u00eancia de tudo o que era antes intencional e n\u00e3o intencional? A mulher de Lot sente uma asfixia e rodopia at\u00e9 cair ao ch\u00e3o. Nesse gesto involunt\u00e1rio, encontra-se a possibilidade de que, no momento da queda, seus olhos tenham fitado, de relance, a cidade condenada.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos argumentos ressaltados em Comin (2017) \u00e9 o de que a produ\u00e7\u00e3o de poesia, depois da Segunda Guerra Mundial, tornara-se principalmente um ato de resist\u00eancia. Acrescentamos que, ao representar os sujeitos que passam por diversos tipos de press\u00e3o social, a poesia garante a si mesma uma fun\u00e7\u00e3o dupla: a de resist\u00eancia pela arte e a de resist\u00eancia dos indiv\u00edduos. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para rebuscamentos de formas sintagm\u00e1ticas e de metro, a forma deve estar a servi\u00e7o do conte\u00fado na transmiss\u00e3o de valores t\u00e3o universais quanto a resist\u00eancia dos corpos. Portanto, a estrutura pode ser similar ao conceito de <em>signo lingu\u00edstico<\/em>, que alia o plano de express\u00e3o ao plano de conte\u00fado, a jun\u00e7\u00e3o entre o significado e o significante. O paradigma a ser seguido \u00e9 o da linguagem simples, n\u00e3o rasa nem pomposa, mas aquela com o devido despojamento para expressar o que importa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">__________<\/p>\n\n\n\n<p>\u00cdntegra dos poemas mencionados:<\/p>\n\n\n\n<p>    <\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>A mulher de Lot<\/u><\/strong> [Wis\u0142awa Szymborska]<\/p>\n\n\n\n<p>Dizem que olhei para tr\u00e1s de curiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quem sabe eu tamb\u00e9m tinha outras raz\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei para tr\u00e1s de pena pela tigela de prata.<\/p>\n\n\n\n<p>Por distra\u00e7\u00e3o \u2014 amarrando a tira da sand\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00e3o olhar mais para a nuca virtuosa<\/p>\n\n\n\n<p>do meu marido Lot.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela s\u00fabita certeza de que se eu morresse<\/p>\n\n\n\n<p>ele nem diminuiria o passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela desobedi\u00eancia dos mansos.<\/p>\n\n\n\n<p>Alerta \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Afetada pelo sil\u00eancio, na esperan\u00e7a de Deus ter mudado de ideia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossas duas filhas j\u00e1 sumiam para l\u00e1 do cimo do morro.<\/p>\n\n\n\n<p>Senti em mim a velhice. O afastamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A futilidade da err\u00e2ncia. Sonol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei para tr\u00e1s enquanto punha a trouxa no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei para tr\u00e1s por receio de onde pisar.<\/p>\n\n\n\n<p>No meu caminho surgiram serpentes,<\/p>\n\n\n\n<p>aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 n\u00e3o eram bons nem maus \u2014 simplesmente tudo que vivia<\/p>\n\n\n\n<p>serpenteava ou pulava em p\u00e2nico consorte.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei para tr\u00e1s de solid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De vergonha de fugir \u00e0s escondidas.<\/p>\n\n\n\n<p>De vontade de gritar, de voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou foi s\u00f3 quando um vento bateu,<\/p>\n\n\n\n<p>despenteou meu cabelo e levantou meu vestido.<\/p>\n\n\n\n<p>Tive a impress\u00e3o de que me viam dos muros de Sodoma<\/p>\n\n\n\n<p>e ca\u00edam na risada, uma vez, outra vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei para tr\u00e1s de raiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Para me saciar de sua enorme ru\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei para tr\u00e1s por todas as raz\u00f5es mencionadas acima.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei para tr\u00e1s sem querer.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma fenda que de s\u00fabito me podou o passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi ent\u00e3o que ambos olhamos para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. Eu continuava correndo,<\/p>\n\n\n\n<p>me arrastava e levantava,<\/p>\n\n\n\n<p>enquanto a escurid\u00e3o n\u00e3o caiu do c\u00e9u<\/p>\n\n\n\n<p>e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem poder respirar, rodopiei v\u00e1rias vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Se algu\u00e9m me visse, por certo acharia que eu dan\u00e7ava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 conceb\u00edvel que meus olhos estivessem abertos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que ao cair meu rosto fitasse a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">__________<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>A flor e a n\u00e1usea<\/u><\/strong> [Carlos Drummond de Andrade]<\/p>\n\n\n\n<p>Preso \u00e0 minha classe e a algumas roupas,<\/p>\n\n\n\n<p>vou de branco pela rua cinzenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Melancolias, mercadorias espreitam-me.<\/p>\n\n\n\n<p>Devo seguir at\u00e9 o enjoo?<\/p>\n\n\n\n<p>Posso, sem armas, revoltar-me?<\/p>\n\n\n\n<p>___          <\/p>\n\n\n\n<p>Olhos sujos no rel\u00f3gio da torre:<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, o tempo n\u00e3o chegou de completa justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo \u00e9 ainda de fezes, maus poemas, alucina\u00e7\u00f5es e espera.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo pobre, o poeta pobre<\/p>\n\n\n\n<p>fundem-se no mesmo impasse.<\/p>\n\n\n\n<p>___      <\/p>\n\n\n\n<p>Em v\u00e3o me tento explicar, os muros s\u00e3o surdos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a pele das palavras h\u00e1 cifras e c\u00f3digos.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol consola os doentes e n\u00e3o os renova.<\/p>\n\n\n\n<p>As coisas. Que tristes s\u00e3o as coisas, consideradas sem \u00eanfase.<\/p>\n\n\n\n<p>___       <\/p>\n\n\n\n<p>Vomitar esse t\u00e9dio sobre a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta anos e nenhum problema<\/p>\n\n\n\n<p>resolvido, sequer colocado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma carta escrita nem recebida.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os homens voltam para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e3o menos livres mas levam jornais<\/p>\n\n\n\n<p>e soletram o mundo, sabendo que o perdem.<\/p>\n\n\n\n<p>___        <\/p>\n\n\n\n<p>Crimes da terra, como perdo\u00e1-los?<\/p>\n\n\n\n<p>Tomei parte em muitos, outros escondi.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns achei belos, foram publicados.<\/p>\n\n\n\n<p>Crimes suaves, que ajudam a viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Ra\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de erro, distribu\u00edda em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ferozes padeiros do mal.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ferozes leiteiros do mal.<\/p>\n\n\n\n<p>P\u00f4r fogo em tudo, inclusive em mim.<\/p>\n\n\n\n<p>___       <\/p>\n\n\n\n<p>Ao menino de 1918 chamavam anarquista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m meu \u00f3dio \u00e9 o melhor de mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Com ele me salvo<\/p>\n\n\n\n<p>e dou a poucos uma esperan\u00e7a m\u00ednima.<\/p>\n\n\n\n<p>___      <\/p>\n\n\n\n<p>Uma flor nasceu na rua!<\/p>\n\n\n\n<p>Passe de longe, bondes, \u00f4nibus, rio de a\u00e7o do tr\u00e1fego.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma flor ainda desbotada<\/p>\n\n\n\n<p>ilude a pol\u00edcia, rompe o asfalto.<\/p>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7am completo sil\u00eancio, paralisem os neg\u00f3cios,<\/p>\n\n\n\n<p>garanto que uma flor nasceu.<\/p>\n\n\n\n<p>___       <\/p>\n\n\n\n<p>Sua cor n\u00e3o se percebe.<\/p>\n\n\n\n<p>Suas p\u00e9talas n\u00e3o se abrem.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu nome n\u00e3o est\u00e1 nos livros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 feia. Mas \u00e9 realmente uma flor.<\/p>\n\n\n\n<p>___        <\/p>\n\n\n\n<p>Sento-me no ch\u00e3o da capital do pa\u00eds \u00e0s cinco horas da tarde<\/p>\n\n\n\n<p>e lentamente passo a m\u00e3o nessa forma insegura.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado das montanhas, nuvens maci\u00e7as avolumam-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em p\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 feia. Mas \u00e9 uma flor. Furou o asfalto, o t\u00e9dio, o nojo e o \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Prof. Daniel Costa Jr.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-295\" width=\"85\" height=\"85\" srcset=\"https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3.png 512w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-300x300.png 300w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-150x150.png 150w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-270x270.png 270w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-192x192.png 192w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-180x180.png 180w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/cropped-LexemaIcone3-32x32.png 32w\" sizes=\"(max-width: 85px) 100vw, 85px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ANDRADE, Carlos Drummond. <em>A rosa do povo<\/em>. 21 ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>COMIN, Clarissa L. Apontamentos sobre corpo e resist\u00eancia: an\u00e1lise de dois poemas de Wis\u0142awa Szymborska.&nbsp;<em>Anu\u00e1rio de Literatura<\/em>,&nbsp;[S. l.], v. 22, n. 2, p. 161-173, 2017. DOI: 10.5007\/2175-7917.2017v22n2p161. Dispon\u00edvel em: https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/literatura\/article\/view\/2175-7917.2017v22n2p161. Acesso em: 16 maio 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>HAMBURGUER, Michael. <em>A verdade da poesia<\/em>: tens\u00f5es na poesia modernista desde Baudelaire. Trad. Al\u00edpio Correia de Franca Neto. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>JAKOBSON, Roman. Lingu\u00edstica e po\u00e9tica. In: JAKOBSON, Roman. <em>Lingu\u00edstica e comunica\u00e7\u00e3o<\/em>. Trad. Izidoro Blikstein e Jos\u00e9 Paulo Paes. 22\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2008. p. 118-192.<\/p>\n\n\n\n<p>LISPECTOR, Clarice. <em>A hora da estrela<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.<\/p>\n\n\n\n<p>ROSA, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es. <em>Primeiras est\u00f3rias<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>SAUSSURE, Ferdinand de. <em>Curso de lingu\u00edstica geral.<\/em> ed. 27. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p>SZYMBORSKA, Wis\u0142awa. <em>Poemas<\/em>. Trad. Regina Przybycien. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes parece retr\u00f3grado pensar em estrutura em pleno s\u00e9culo XXI, porquanto parece anacr\u00f4nica a heran\u00e7a saussuriana advinda dos t\u00e3o distantes mil e novecentos. A parole costumava ser preterida em lugar da langue, na dicotomia que se lhe comp\u00f5e, pois a dificuldade dos discursos envolvia uma transcend\u00eancia que ultrapassava a experimenta\u00e7\u00e3o dos dados. A teoria liter\u00e1ria j\u00e1 tentou alcan\u00e7ar a \u201cestrutura\u201d pela unidade exclusiva da presen\u00e7a textual, mas a leitura de versos, como \u201c[d]izem que olhei para tr\u00e1s [&#8230;] \/ Para n\u00e3o olhar mais para a nuca virtuosa \/ de meu marido Lot\u201d, de Wis\u0142awa Szymborska, \u00e9 o que insiste em nos apresentar a extrapola\u00e7\u00e3o do dado emp\u00edrico: a subjetividade. A interioridade subjetiva \u00e9 o alvo do lirismo, sem a qual n\u00e3o haveria a necessidade de distin\u00e7\u00e3o entre os g\u00eaneros l\u00edrico e \u00e9pico. E, a jun\u00e7\u00e3o entre as fun\u00e7\u00f5es emotiva e po\u00e9tica \u00e9 o que nos forneceria o padr\u00e3o jakobsoniano (2008) da forma, a que se corporifica nos poemas. Tem-se a padroniza\u00e7\u00e3o da forma aliada ao conte\u00fado, que oferece a todos o conforto cognitivo da tradi\u00e7\u00e3o est\u00e9tica \u2013 uma tradi\u00e7\u00e3o que o modernismo sublimou com suas experimenta\u00e7\u00f5es ousadas, por vezes beirando a insol\u00eancia, e que geraram uma nova tradi\u00e7\u00e3o desde ent\u00e3o, cujo car\u00e1ter Hamburguer (2007) nominou de \u201cantipoesia\u201d. Mas, deve haver uma forma para a tal antipo\u00e9tica, a forma a que t\u00e3o facilmente se inseriu Szymborska, se \u00e9 que h\u00e1 alguma facilidade nisto. Perceba-se que o equil\u00edbrio da forma, a servi\u00e7o do conte\u00fado, sempre foi uma grata recomenda\u00e7\u00e3o na arte po\u00e9tica. A exce\u00e7\u00e3o ocorre com os parnasianos e, por tabela, os simbolistas que desenvolveram a arte pela arte, uma esp\u00e9cie de exacerba\u00e7\u00e3o da forma pela qual o conte\u00fado era um mero detalhe. Baudelaire, mesmo sob anseios simbolistas, impulsiona a prosifica\u00e7\u00e3o da poesia num modelo em que o metro se vai perdendo, as rimas idem. Sendo esse um legado aprimorado pelos modernistas e p\u00f3s-modernistas diligentes em expressar \u201c[&#8230;] as \u2018coisas do modo como s\u00e3o\u2019 na linguagem das pessoas do modo como falam\u201d (HAMBURGUER, 2007, p. 369). O conte\u00fado passa a ter a primazia sobre a forma presente na superf\u00edcie po\u00e9tica. Em 1976, Szymborska publica \u017bona Lota, poema intertextual \u00e0 passagem b\u00edblica da mulher de Lot. Nele, interessam o conte\u00fado e os impl\u00edcitos do n\u00e3o dito, aquilo que estaria subjacente ao direito que eu l\u00edrico n\u00e3o tem de olhar para tr\u00e1s. Se n\u00e3o fosse a materialidade dos versos, somente se perceberia a poesia pelo lirismo presente no fluxo de consci\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 metro fixo, n\u00e3o h\u00e1 rimas evidentes nas palavras finais da maioria dos versos, por exemplo, curiosa \/ raz\u00f5es \/ prata \/ sand\u00e1lia \/ Lot. H\u00e1 quem diga que n\u00e3o se pode chegar a conclus\u00f5es definitivas em poemas traduzidos. Que se veja, ent\u00e3o, o original em polaco. Mesmo que n\u00e3o saibamos a gram\u00e1tica da l\u00edngua, podemos perceber, mediante sua transcri\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica, que as rimas ainda n\u00e3o s\u00e3o percept\u00edveis: ciekawo\u015bci [\u02a8\u0311\u025b\u0307\u0303ka\u2019v\u0254\u0255\u02a8\u0311i] \/ powody [po\u2019v\u0254dy] \/ srebra [\u2018sr\u025bba] \/ sanda\u0142a [\u2018s\u00e3ndawa] \/ kark [kark] \/ Lota [\u2018l\u0254ta]. Haveria, no m\u00e1ximo, uma rima n\u00e3o soante, mas toante entre as parox\u00edtonas ciekawo\u015bci e powody. Realmente, o conte\u00fado de \u017bona Lota \u00e9 o que nos toca. \u00c9 a dor em representar a insignific\u00e2ncia do g\u00eanero, dosada com uma mescla de ingenuidade e fina ironia, o que faz o leitor captar a inoc\u00eancia actante dos injusti\u00e7ados. O eu l\u00edrico feminino aponta, logo no verso inicial, o primeiro motivo da a\u00e7\u00e3o de olhar para tr\u00e1s: a curiosidade. Sim, a cl\u00e1ssica nega\u00e7\u00e3o do saber imposta \u00e0s mulheres, que remonta \u00e0 primeira mulher do mito judaico-crist\u00e3o, aquela que queria apenas provar do fruto do conhecimento no para\u00edso. Ainda que seja curiosidade em saber, o eu l\u00edrico lista uma s\u00e9rie de motiva\u00e7\u00f5es com diferentes graus de intencionalidade, algumas com pouca inten\u00e7\u00e3o, \u201c[&#8230;] um vento bateu, \/ despenteou meu cabelo\u201d, outras que revelam maior intuito, \u201c[p]ela desobedi\u00eancia dos mansos\u201d. A linguagem dos poemas \u00e9 bastante simples, mas n\u00e3o simpl\u00f3ria. Como dizia o narrador de A hora da estrela: \u201cQue ningu\u00e9m se engane, s\u00f3 consigo a simplicidade atrav\u00e9s de muito trabalho\u201d (LISPECTOR, 1995, p. 25). A simplicidade \u00e9 um objetivo que exige trabalho quase bra\u00e7al, muita minera\u00e7\u00e3o e lapida\u00e7\u00e3o, e o ato de n\u00e3o se deixar envolver pela pompa dos lexemas, nem pelo anseio do uso de palavras e desin\u00eancias ex\u00f3ticas. A linguagem simplificada, o metro simplificado, as rimas quase impercept\u00edveis e inexistentes tornaram-se a forma da poesia buscada pelos poetas dos tempos pr\u00f3ximos ao nosso. Visivelmente, \u00e9 uma tend\u00eancia erudita, j\u00e1 que os poetas do povo mant\u00eam-se sob o metro e as rimas, os repentistas, os cordelistas, os rappers e os funkeiros. Apenas nesses casos, a musicalidade da fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica parece predominar como um fen\u00f4meno das massas. Quando o t\u00edtulo deste microensaio refere-se \u00e0 forma das resist\u00eancias, n\u00e3o \u00e9 gratuita a escolha lexical que substantiva o ato de resistir. Note-se que n\u00e3o se quer ressaltar a \u201cresili\u00eancia\u201d, que adv\u00e9m da l\u00edngua inglesa e que \u00e9 t\u00e3o propagada no vocabul\u00e1rio dos treinadores motivacionais qu\u00e2nticos. Fala-se aqui da boa e velha \u201cresist\u00eancia\u201d, presente h\u00e1 mais de seis s\u00e9culos no l\u00e9xico do portugu\u00eas, a mesma que Clarissa Comin associa \u00e0 poesia que resiste: \u201cnas m\u00e3os e nas gargantas dos que foram espoliados de seu modo de vida, [..] tornou-se arma pol\u00edtica e panaceia contra o sil\u00eancio imposto\u201d (COMIN, 2017, p. 162-3).&nbsp; A resist\u00eancia presente nos fr\u00e1geis \u00e9 similar aos excertos do poema drummondiano A flor e a n\u00e1usea: \u201cPosso, sem armas, revoltar-me?\u201d, \u201cTodos os homens voltam para casa. \/ Est\u00e3o menos livres mas levam jornais\u201d. Nos versos, h\u00e1 a dor da submiss\u00e3o e da impot\u00eancia, tal como pesa em \u017bona Lota outros sistemas de opress\u00e3o. Drummond e Szymborska lan\u00e7am pistas de suas viv\u00eancias extratextuais no plano intratextual, ambos estiveram sob regimes totalit\u00e1rios, embora incida sobre a polonesa os encargos hist\u00f3ricos do g\u00eanero feminino. Ambos selecionam, na dor, a alegria das pequenas coisas: em Szymborska, o vento levanta o vestido da mulher e ela teve a \u201cimpress\u00e3o de que me viam dos muros de Sodoma \/ e ca\u00edam na risada\u201d; em Drummond, uma flor nasceu na rua e rompeu o asfalto, a tal flor \u201c[\u00e9] feia. Mas \u00e9 realmente uma flor\u201d. De modo literal, a resist\u00eancia diz respeito \u00e0 capacidade de um corpo reagir a outro corpo com imobilidade. Metaforicamente, o conceito transp\u00f5e-se aos corpos humanos, sendo um lirismo emotivo que ultrapassa o plano po\u00e9tico e invade o plano da prosa. Muitos leitores lembram o peso social e familiar que o pai do narrador de A terceira margem do rio sentiu, ao ponto de construir para si uma canoa e isolar seu pr\u00f3prio corpo, a viver o resto dos dias num rio. N\u00e3o h\u00e1 outra forma de ver isso, sen\u00e3o \u201c[p]ela desobedi\u00eancia dos mansos\u201d, como se declara em \u017bona Lota. Os sistemas sociais e suas rela\u00e7\u00f5es de poder s\u00e3o elementos abstratos que influem no plano f\u00edsico do corpo. De outro modo, como explicar a dram\u00e1tica conclus\u00e3o em que o corpo assume a reg\u00eancia de tudo o que era antes intencional e n\u00e3o intencional? A mulher de Lot sente uma asfixia e rodopia at\u00e9 cair ao ch\u00e3o. Nesse gesto involunt\u00e1rio, encontra-se a possibilidade de que, no momento da queda, seus olhos tenham fitado, de relance, a cidade condenada. Um dos argumentos ressaltados em Comin (2017) \u00e9 o de que a produ\u00e7\u00e3o de poesia, depois da Segunda Guerra Mundial, tornara-se principalmente um ato de resist\u00eancia. Acrescentamos que, ao representar os sujeitos que passam por diversos tipos de press\u00e3o social, a poesia garante a si mesma uma fun\u00e7\u00e3o dupla: a de resist\u00eancia pela arte e a de resist\u00eancia dos indiv\u00edduos. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para rebuscamentos de formas sintagm\u00e1ticas e de metro, a forma deve estar a servi\u00e7o do conte\u00fado na transmiss\u00e3o de valores t\u00e3o universais quanto a resist\u00eancia dos corpos. Portanto, a estrutura pode ser similar ao conceito de signo lingu\u00edstico, que alia o plano de express\u00e3o ao plano de conte\u00fado, a jun\u00e7\u00e3o entre o significado e o significante. O paradigma a ser seguido \u00e9 o da linguagem simples, n\u00e3o rasa nem pomposa, mas aquela com o devido despojamento para expressar o que importa. __________ \u00cdntegra dos poemas mencionados: A mulher de Lot [Wis\u0142awa Szymborska] Dizem que olhei para tr\u00e1s de curiosa. Mas quem sabe eu tamb\u00e9m tinha outras raz\u00f5es. Olhei para tr\u00e1s de pena pela tigela de prata. Por distra\u00e7\u00e3o \u2014 amarrando a tira da sand\u00e1lia. Para n\u00e3o olhar mais para a nuca virtuosa do meu marido Lot. Pela s\u00fabita certeza de que se eu morresse ele nem diminuiria o passo. Pela desobedi\u00eancia dos mansos. Alerta \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o. Afetada pelo sil\u00eancio, na esperan\u00e7a de Deus ter mudado de ideia. Nossas duas filhas j\u00e1 sumiam para l\u00e1 do cimo do morro. Senti em mim a velhice. O afastamento. A futilidade da err\u00e2ncia. Sonol\u00eancia. Olhei para tr\u00e1s enquanto punha a trouxa no ch\u00e3o. Olhei para tr\u00e1s por receio de onde pisar. No meu caminho surgiram serpentes, aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres. J\u00e1 n\u00e3o eram bons nem maus \u2014 simplesmente tudo que vivia serpenteava ou pulava em p\u00e2nico consorte. Olhei para tr\u00e1s de solid\u00e3o. De vergonha de fugir \u00e0s escondidas. De vontade de gritar, de voltar. Ou foi s\u00f3 quando um vento bateu, despenteou meu cabelo e levantou meu vestido. Tive a impress\u00e3o de que me viam dos muros de Sodoma e ca\u00edam na risada, uma vez, outra vez. Olhei para tr\u00e1s de raiva. Para me saciar de sua enorme ru\u00edna. Olhei para tr\u00e1s por todas as raz\u00f5es mencionadas acima. Olhei para tr\u00e1s sem querer. Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus p\u00e9s. Foi uma fenda que de s\u00fabito me podou o passo. Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas. E foi ent\u00e3o que ambos olhamos para tr\u00e1s. N\u00e3o, n\u00e3o. Eu continuava correndo, me arrastava e levantava, enquanto a escurid\u00e3o n\u00e3o caiu do c\u00e9u e com ela o cascalho ardente e as aves mortas. Sem poder respirar, rodopiei v\u00e1rias vezes. Se algu\u00e9m me visse, por certo acharia que eu dan\u00e7ava. \u00c9 conceb\u00edvel que meus olhos estivessem abertos. \u00c9 poss\u00edvel que ao cair meu rosto fitasse a cidade. __________ A flor e a n\u00e1usea [Carlos Drummond de Andrade] Preso \u00e0 minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir at\u00e9 o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? ___ Olhos sujos no rel\u00f3gio da torre: N\u00e3o, o tempo n\u00e3o chegou de completa justi\u00e7a. O tempo \u00e9 ainda de fezes, maus poemas, alucina\u00e7\u00f5es e espera. O tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse. ___ Em v\u00e3o me tento explicar, os muros s\u00e3o surdos. Sob a pele das palavras h\u00e1 cifras e c\u00f3digos. O sol consola os doentes e n\u00e3o os renova. As coisas. Que tristes s\u00e3o as coisas, consideradas sem \u00eanfase. ___ Vomitar esse t\u00e9dio sobre a cidade. Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. Nenhuma carta escrita nem recebida. Todos os homens voltam para casa. Est\u00e3o menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem. ___ Crimes da terra, como perdo\u00e1-los? Tomei parte em muitos, outros escondi. Alguns achei belos, foram publicados. Crimes suaves, que ajudam a viver. Ra\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de erro, distribu\u00edda em casa. Os ferozes padeiros do mal. Os ferozes leiteiros do mal. P\u00f4r fogo em tudo, inclusive em mim. ___ Ao menino de 1918 chamavam anarquista. Por\u00e9m meu \u00f3dio \u00e9 o melhor de mim. Com ele me salvo e dou a poucos uma esperan\u00e7a m\u00ednima. ___ Uma flor nasceu na rua! Passe de longe, bondes, \u00f4nibus, rio de a\u00e7o do tr\u00e1fego. Uma flor ainda desbotada ilude a pol\u00edcia, rompe o asfalto. Fa\u00e7am completo sil\u00eancio, paralisem os neg\u00f3cios, garanto que uma flor nasceu. ___ Sua cor n\u00e3o se percebe. Suas p\u00e9talas n\u00e3o se abrem. Seu nome n\u00e3o est\u00e1 nos livros. \u00c9 feia. Mas \u00e9 realmente uma flor. ___ Sento-me no ch\u00e3o da capital do pa\u00eds \u00e0s cinco horas da tarde e lentamente passo a m\u00e3o nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maci\u00e7as avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em p\u00e2nico. \u00c9 feia. Mas \u00e9 uma flor. Furou o asfalto, o t\u00e9dio, o nojo e o \u00f3dio. Prof&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":442,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[27,26,6],"class_list":["post-441","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-literatura","tag-poesia","tag-sociedade"],"aioseo_notices":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=441"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":450,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441\/revisions\/450"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}