{"id":423,"date":"2024-01-30T12:00:00","date_gmt":"2024-01-30T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lexema.com.br\/?p=423"},"modified":"2024-01-26T11:56:24","modified_gmt":"2024-01-26T14:56:24","slug":"poliamor-e-errado-entenda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/2024\/01\/30\/poliamor-e-errado-entenda\/","title":{"rendered":"Poliamor \u00e9 errado? Entenda"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje em dia, as pessoas reivindicam o direito de coisas que deixariam at\u00e9 a peruca mais antiga da sua av\u00f3 de cabelo em p\u00e9. Longe de ser uma inven\u00e7\u00e3o moderna, o poliamor tem ganhado visibilidade nas redes sociais do cotidiano. A literatura est\u00e1 cheia de tri\u00e2ngulos amorosos conflituosos que, se fossem vividos sob a filosofia do poliamor, dificilmente ter\u00edamos uma fic\u00e7\u00e3o envolvente. O que dizer do tri\u00e2ngulo machadiano entre Bentinho, Capitu e Escobar, se o protagonista fosse um bem-resolvido praticante de poliamor? Provavelmente perderia metade da gra\u00e7a, devido \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da mente atormentada do personagem Bentinho.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, n\u00e3o s\u00e3o aspectos antropol\u00f3gicos nem liter\u00e1rios que queremos abordar aqui, mas sim a corre\u00e7\u00e3o da palavra: O POLIAMOR EST\u00c1 ERRADO?<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se dizer que SIM e N\u00c2O. E a resposta baseia-se na morfologia, \u00e1rea da ci\u00eancia lingu\u00edstica que estuda a palavra, sua estrutura e composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe-se que os radicais s\u00e3o elementos b\u00e1sicos das palavras que carregam o n\u00facleo da significa\u00e7\u00e3o. Ao considerar as subpartes dos voc\u00e1bulos em sua origem, percebe-se uma grande quantidade de radicais gregos e latinos na l\u00edngua portuguesa. Para gram\u00e1ticos como Rocha Lima (2011), esses radicais podem ser chamados de corradicais, isso porque eles costumam aglutinar-se a outros radicais para formar palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>Cunha e Cintra (2004) afirmam que gram\u00e1ticos excessivamente puristas condenavam a combina\u00e7\u00e3o de radicais de diferentes origens lingu\u00edsticas:<\/p>\n\n\n\n<p>As forma\u00e7\u00f5es h\u00edbridas s\u00e3o em geral condenadas pelos gram\u00e1ticos, mas existem algumas t\u00e3o enraizadas no idioma que seria pueril pretender elimin\u00e1-las. (CUNHA; CINTRA, 2004, p. 84)<\/p>\n\n\n\n<p>Tal processo que combina radicais de proced\u00eancias diferentes \u00e9 denominado <strong>hibridismo<\/strong>. Veja-se os exemplos:<\/p>\n\n\n\n<p><em>autom\u00f3vel <\/em>(grego e latim)<\/p>\n\n\n\n<p><em>b\u00edgamo<\/em> (latim e grego)<\/p>\n\n\n\n<p><em>burocracia<\/em> (franc\u00eas e grego)<\/p>\n\n\n\n<p><em>caferana<\/em> (\u00e1rabe e tupi)<\/p>\n\n\n\n<p><em>dec\u00edmetro<\/em> (latim e grego)<\/p>\n\n\n\n<p><em>goiabeira<\/em> (tupi e portugu\u00eas)<\/p>\n\n\n\n<p><em>mon\u00f3culo<\/em> (grego e latim)<\/p>\n\n\n\n<p><em>neolatino<\/em> (grego e latim)<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Bechara (2015), isso ocorre porque o falante assimila os diversos termos como se fossem termos nativos da l\u00edngua, por isso o hibridismo \u00e9 t\u00e3o frequente em nosso idioma.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, voltemos ao \u201cpoliamor\u201d, que chegou at\u00e9 n\u00f3s por influ\u00eancia do ingl\u00eas <em>polyamory<\/em>, na d\u00e9cada de 1990. Com a an\u00e1lise dos radicais, tem-se:<\/p>\n\n\n\n<p><em>poli<\/em> (grego) = muito, numeroso<\/p>\n\n\n\n<p><em>amor<\/em> (latim) = amizade, afei\u00e7\u00e3o, paix\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>POLIAMOR \u00e9 grego e latim, o que seria um erro para gram\u00e1ticos conservadores e eruditos. Para estes, seria mais adequado uma composi\u00e7\u00e3o de latim + latim ou de grego + grego, tal como se demonstra a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p><em>multi-<\/em> (do latim \u201cmuito\u201d, \u201cabundante\u201d) + <em>-amor<\/em> (latim) = MULTIAMOR<\/p>\n\n\n\n<p><em>poli-<\/em> (grego) + <em>-filia<\/em> (do grego \u201camigo\u201d, \u201camante\u201d) = POLIFILIA<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a palavra <em>poliamor<\/em> est\u00e1 errada na vis\u00e3o de te\u00f3ricos conservadores, mas est\u00e1 correta na concep\u00e7\u00e3o de hibridismo dos gram\u00e1ticos contempor\u00e2neos, bem como na percep\u00e7\u00e3o de falantes nativos. Obviamente a palavra <em>poliamor<\/em> \u00e9 igualmente correta na boca daqueles que a transformam em atos, tendo o seu significado como:<\/p>\n\n\n\n<p>s.m. Conv\u00edvio intimo, rom\u00e2ntico e\/ou sexual, concomitante e consensual, entre tr\u00eas ou mais pessoas. (HOUAISS, 2009)<\/p>\n\n\n\n<p>Lembre-se: o que \u00e9 realmente errado \u00e9 vigiar e tomar conta da l\u00edngua e da intimidade alheias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Prof. Daniel Costa Jr.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LexemaIcone3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-289\" width=\"85\" height=\"83\" srcset=\"https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LexemaIcone3.png 704w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LexemaIcone3-300x291.png 300w\" sizes=\"(max-width: 85px) 100vw, 85px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p>BECHARA, E.&nbsp;<em>Moderna gram\u00e1tica portuguesa<\/em>. ed. 38. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>CUNHA, C.; CINTRA, L.&nbsp;<em>Breve gram\u00e1tica do portugu\u00eas contempor\u00e2neo<\/em>. ed. 17. Lisboa: Jo\u00e3o S\u00e1 da Costa, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dicion\u00e1rio HOUAISS da l\u00edngua portuguesa<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt; https:\/\/houaiss.uol.com.br\/&gt;. Consulta em 14 jan. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>ROCHA LIMA, C. H.&nbsp;<em>Gram\u00e1tica normativa da l\u00edngua portuguesa<\/em>. ed. 49. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje em dia, as pessoas reivindicam o direito de coisas que deixariam at\u00e9 a peruca mais antiga da sua av\u00f3 de cabelo em p\u00e9. Longe de ser uma inven\u00e7\u00e3o moderna, o poliamor tem ganhado visibilidade nas redes sociais do cotidiano. A literatura est\u00e1 cheia de tri\u00e2ngulos amorosos conflituosos que, se fossem vividos sob a filosofia do poliamor, dificilmente ter\u00edamos uma fic\u00e7\u00e3o envolvente. O que dizer do tri\u00e2ngulo machadiano entre Bentinho, Capitu e Escobar, se o protagonista fosse um bem-resolvido praticante de poliamor? Provavelmente perderia metade da gra\u00e7a, devido \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da mente atormentada do personagem Bentinho. No entanto, n\u00e3o s\u00e3o aspectos antropol\u00f3gicos nem liter\u00e1rios que queremos abordar aqui, mas sim a corre\u00e7\u00e3o da palavra: O POLIAMOR EST\u00c1 ERRADO? Pode-se dizer que SIM e N\u00c2O. E a resposta baseia-se na morfologia, \u00e1rea da ci\u00eancia lingu\u00edstica que estuda a palavra, sua estrutura e composi\u00e7\u00e3o. Sabe-se que os radicais s\u00e3o elementos b\u00e1sicos das palavras que carregam o n\u00facleo da significa\u00e7\u00e3o. Ao considerar as subpartes dos voc\u00e1bulos em sua origem, percebe-se uma grande quantidade de radicais gregos e latinos na l\u00edngua portuguesa. Para gram\u00e1ticos como Rocha Lima (2011), esses radicais podem ser chamados de corradicais, isso porque eles costumam aglutinar-se a outros radicais para formar palavras. Cunha e Cintra (2004) afirmam que gram\u00e1ticos excessivamente puristas condenavam a combina\u00e7\u00e3o de radicais de diferentes origens lingu\u00edsticas: As forma\u00e7\u00f5es h\u00edbridas s\u00e3o em geral condenadas pelos gram\u00e1ticos, mas existem algumas t\u00e3o enraizadas no idioma que seria pueril pretender elimin\u00e1-las. (CUNHA; CINTRA, 2004, p. 84) Tal processo que combina radicais de proced\u00eancias diferentes \u00e9 denominado hibridismo. Veja-se os exemplos: autom\u00f3vel (grego e latim) b\u00edgamo (latim e grego) burocracia (franc\u00eas e grego) caferana (\u00e1rabe e tupi) dec\u00edmetro (latim e grego) goiabeira (tupi e portugu\u00eas) mon\u00f3culo (grego e latim) neolatino (grego e latim) De acordo com Bechara (2015), isso ocorre porque o falante assimila os diversos termos como se fossem termos nativos da l\u00edngua, por isso o hibridismo \u00e9 t\u00e3o frequente em nosso idioma. Contudo, voltemos ao \u201cpoliamor\u201d, que chegou at\u00e9 n\u00f3s por influ\u00eancia do ingl\u00eas polyamory, na d\u00e9cada de 1990. Com a an\u00e1lise dos radicais, tem-se: poli (grego) = muito, numeroso amor (latim) = amizade, afei\u00e7\u00e3o, paix\u00e3o POLIAMOR \u00e9 grego e latim, o que seria um erro para gram\u00e1ticos conservadores e eruditos. Para estes, seria mais adequado uma composi\u00e7\u00e3o de latim + latim ou de grego + grego, tal como se demonstra a seguir: multi- (do latim \u201cmuito\u201d, \u201cabundante\u201d) + -amor (latim) = MULTIAMOR poli- (grego) + -filia (do grego \u201camigo\u201d, \u201camante\u201d) = POLIFILIA Portanto, a palavra poliamor est\u00e1 errada na vis\u00e3o de te\u00f3ricos conservadores, mas est\u00e1 correta na concep\u00e7\u00e3o de hibridismo dos gram\u00e1ticos contempor\u00e2neos, bem como na percep\u00e7\u00e3o de falantes nativos. Obviamente a palavra poliamor \u00e9 igualmente correta na boca daqueles que a transformam em atos, tendo o seu significado como: s.m. Conv\u00edvio intimo, rom\u00e2ntico e\/ou sexual, concomitante e consensual, entre tr\u00eas ou mais pessoas. (HOUAISS, 2009) Lembre-se: o que \u00e9 realmente errado \u00e9 vigiar e tomar conta da l\u00edngua e da intimidade alheias. Prof. Daniel Costa Jr. Refer\u00eancias BECHARA, E.&nbsp;Moderna gram\u00e1tica portuguesa. ed. 38. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. CUNHA, C.; CINTRA, L.&nbsp;Breve gram\u00e1tica do portugu\u00eas contempor\u00e2neo. ed. 17. Lisboa: Jo\u00e3o S\u00e1 da Costa, 2004. Dicion\u00e1rio HOUAISS da l\u00edngua portuguesa. Dispon\u00edvel em: &lt; https:\/\/houaiss.uol.com.br\/&gt;. Consulta em 14 jan. 2023. ROCHA LIMA, C. H.&nbsp;Gram\u00e1tica normativa da l\u00edngua portuguesa. ed. 49. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2011.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":424,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[4,7],"tags":[3,25,6],"class_list":["post-423","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-gramatica","category-sociedade","tag-gramatica","tag-morfologia","tag-sociedade"],"aioseo_notices":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=423"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":439,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423\/revisions\/439"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/424"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}