{"id":166,"date":"2020-03-27T18:09:06","date_gmt":"2020-03-27T18:09:06","guid":{"rendered":"http:\/\/127.0.0.1\/glotocracia\/wordpress\/?p=166"},"modified":"2023-07-21T12:44:11","modified_gmt":"2023-07-21T15:44:11","slug":"coronavirus-uma-gripezinha-o-uso-de-sufixos-diminutivos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lexema.com.br\/index.php\/2020\/03\/27\/coronavirus-uma-gripezinha-o-uso-de-sufixos-diminutivos\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus, uma \u201cgripezinha\u201d \u2013 o uso de sufixos diminutivos"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 20 de mar\u00e7o de 2020,\no presidente Jair Bolsonaro participou de uma entrevista \u00e0 imprensa, ocasi\u00e3o em\nque fez um coment\u00e1rio a respeito das suspeitas que lhe reca\u00edam quanto ao\ncoronav\u00edrus: <\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 \u201c[&#8230;] n\u00e3o vai ser uma <strong>gripezinha<\/strong> que vai me derrubar\u201d, falou\na todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Noutro dia deste mesmo m\u00eas,\no presidente chegou a dizer que mesmo que pegasse o tal v\u00edrus, o m\u00e1ximo que lhe\nocorreria seria o fato de ser \u201cacometido de uma gripezinha, um resfriadinho\u201d. Talvez\numa gripezinha n\u00e3o derrube ningu\u00e9m, mas um sufixo &#8211;<em>inha<\/em> pode derrubar a autoestima de muita gente por a\u00ed, ali\u00e1s, s\u00f3\nmesmo a \u201cgentinha\u201d para deixar-se abater por qualquer sufixo que se lhe\nesfregam na cara. <\/p>\n\n\n\n<p>Sem adentrar-nos em an\u00e1lises\nde contexto pol\u00edtico, podemos, a partir desse fato, avaliar os efeitos de\nsentido dos sufixos diminutivos. A come\u00e7ar pela prescri\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, sobre o que\na gram\u00e1tica normativa diz a esse respeito.<\/p>\n\n\n\n<p>As palavras podem passar por\num processo de transforma\u00e7\u00e3o conhecido por deriva\u00e7\u00e3o. Na an\u00e1lise m\u00f3rfica,\nBechara (2015, p. 354-5) explica que as palavras possuem um <strong>radical<\/strong>, que \u00e9 a parte b\u00e1sica que\ncarrega seu principal sentido (ex: <em>livr-<\/em>,\nde livro; <em>trabalh-<\/em>, de trabalhar), e\num <strong>tema<\/strong>, que \u00e9 o radical acrescido\nde vogal tem\u00e1tica (ex: <em>livro<\/em>, de\nlivro; <em>trabalha-<\/em>, de trabalhar).\nExistem ainda formas fixas que se associam \u00e0 base da palavra: o elemento que se\nacrescenta ao in\u00edcio da base \u00e9 chamado <strong>prefixo<\/strong>\n(ex: <em>in-<\/em>, em infeliz) e o que se acrescenta\nap\u00f3s o radical \u00e9 chamado <strong>sufixo <\/strong>(ex:\n<em>-eiro<\/em>, em sapateiro; <em>-mente<\/em>, em suavemente). <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 que entendemos o que s\u00e3o sufixos, podemos, ent\u00e3o, seguir uma lista mais espec\u00edfica para aqueles que possuem sentido diminutivo. Em Bechara (2015, p. 380-1), os sufixos diminutivos s\u00e3o listados assim:<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos_diminutivos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-371\" width=\"729\" height=\"256\" srcset=\"https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos_diminutivos.jpg 817w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos_diminutivos-300x105.jpg 300w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos_diminutivos-768x270.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 729px) 100vw, 729px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Os sufixos diminutivos indicam n\u00e3o somente a ideia de tamanho reduzido, mas tamb\u00e9m uma id\u00e9ia pejorativa. O professor Freitas (2007, p. 176-7) alerta para os sentidos de <em>papelucho<\/em> (papel sem import\u00e2ncia), <em>gra\u00e7ola<\/em> (gracejo de mau gosto) e <em>velhusco<\/em> (muito envelhecido). Bechara (2015, p. 148) menciona alguns outros de teor pejorativo: <em>livreco<\/em>, <em>padreco<\/em>, <em>coisinha<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>No que concerne aos sufixos <strong>-inho<\/strong>,<strong> -zinho<\/strong>, <strong>-ito <\/strong>e<strong> -zito<\/strong>, existem regras que lhes dizem respeito, embora o seu uso possa ser intercambi\u00e1vel em muitas das vezes (ex: livrinho e livrozinho, medinho e medozinho). Tais s\u00e3o:<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-inho_zinho_ito.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-373\" width=\"710\" height=\"233\" srcset=\"https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-inho_zinho_ito.jpg 811w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-inho_zinho_ito-300x98.jpg 300w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-inho_zinho_ito-768x252.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 710px) 100vw, 710px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>H\u00e1 poucos anos, uma tese de doutorado foi defendida no programa de filologia da Universidade de S\u00e3o Paulo, cujo tema envolvia apenas os sufixos diminutivos. Nela, Santana (2017, p. 551-556) faz uma caracteriza\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica do sufixo <em>-inho<\/em> tendo os seguintes empregos: diminui\u00e7\u00e3o de tamanho, aproxima\u00e7\u00e3o afetiva positiva, deprecia\u00e7\u00e3o, intensidade, dura\u00e7\u00e3o e quantidade. O pesquisador ainda nos esclarece sobre o sentido depreciativo do sufixo <em>-inho<\/em> ao exemplificar:<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-inho_pejorativo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-374\" width=\"515\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-inho_pejorativo.jpg 590w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-inho_pejorativo-300x96.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 515px) 100vw, 515px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Enfim, voltemos ao caso que serviu de pretexto para esta discuss\u00e3o, a gripezinha do coronav\u00edrus. Dele nada pretendemos deduzir sobre seus contextos pol\u00edticos, mas apenas sobre a morfologia e a sem\u00e2ntica gramatical, ou mesmo os efeitos de intera\u00e7\u00e3o envolvendo a pragm\u00e1tica lingu\u00edstica. Conclui-se a seguinte combina\u00e7\u00e3o de sentidos:<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-gripezinha.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-375\" width=\"657\" height=\"121\" srcset=\"https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-gripezinha.jpg 750w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Sufixos-gripezinha-300x55.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 657px) 100vw, 657px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p>BECHARA, Evanildo. <em>Moderna Gram\u00e1tica Portuguesa<\/em>. 38 ed. Rio de Janeiro: Nova\nFronteira, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>FREITAS, Hor\u00e1cio Rolim. <em>Princ\u00edpios de Morfologia<\/em>. 5 ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>SANTANA, Messias dos Santos. <em>O sufixo diminutivo em portugu\u00eas<\/em>: forma, funcionamento e significa\u00e7\u00e3o \u2013 do s\u00e9culo XIII ao XX. Tese (Doutorado em Filologia e L\u00edngua Portuguesa). S\u00e3o Paulo: 2017. 910 f.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LexemaIcone3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-289\" width=\"86\" height=\"84\" srcset=\"https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LexemaIcone3.png 704w, https:\/\/lexema.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LexemaIcone3-300x291.png 300w\" sizes=\"(max-width: 86px) 100vw, 86px\" \/><\/figure>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 20 de mar\u00e7o de 2020, o presidente Jair Bolsonaro participou de uma entrevista \u00e0 imprensa, ocasi\u00e3o em que fez um coment\u00e1rio a respeito das suspeitas que lhe reca\u00edam quanto ao coronav\u00edrus: \u2013 \u201c[&#8230;] n\u00e3o vai ser uma gripezinha que vai me derrubar\u201d, falou a todos. Noutro dia deste mesmo m\u00eas, o presidente chegou a dizer que mesmo que pegasse o tal v\u00edrus, o m\u00e1ximo que lhe ocorreria seria o fato de ser \u201cacometido de uma gripezinha, um resfriadinho\u201d. Talvez uma gripezinha n\u00e3o derrube ningu\u00e9m, mas um sufixo &#8211;inha pode derrubar a autoestima de muita gente por a\u00ed, ali\u00e1s, s\u00f3 mesmo a \u201cgentinha\u201d para deixar-se abater por qualquer sufixo que se lhe esfregam na cara. Sem adentrar-nos em an\u00e1lises de contexto pol\u00edtico, podemos, a partir desse fato, avaliar os efeitos de sentido dos sufixos diminutivos. A come\u00e7ar pela prescri\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, sobre o que a gram\u00e1tica normativa diz a esse respeito. As palavras podem passar por um processo de transforma\u00e7\u00e3o conhecido por deriva\u00e7\u00e3o. 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O professor Freitas (2007, p. 176-7) alerta para os sentidos de papelucho (papel sem import\u00e2ncia), gra\u00e7ola (gracejo de mau gosto) e velhusco (muito envelhecido). Bechara (2015, p. 148) menciona alguns outros de teor pejorativo: livreco, padreco, coisinha. No que concerne aos sufixos -inho, -zinho, -ito e -zito, existem regras que lhes dizem respeito, embora o seu uso possa ser intercambi\u00e1vel em muitas das vezes (ex: livrinho e livrozinho, medinho e medozinho). Tais s\u00e3o: H\u00e1 poucos anos, uma tese de doutorado foi defendida no programa de filologia da Universidade de S\u00e3o Paulo, cujo tema envolvia apenas os sufixos diminutivos. Nela, Santana (2017, p. 551-556) faz uma caracteriza\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica do sufixo -inho tendo os seguintes empregos: diminui\u00e7\u00e3o de tamanho, aproxima\u00e7\u00e3o afetiva positiva, deprecia\u00e7\u00e3o, intensidade, dura\u00e7\u00e3o e quantidade. O pesquisador ainda nos esclarece sobre o sentido depreciativo do sufixo -inho ao exemplificar: Enfim, voltemos ao caso que serviu de pretexto para esta discuss\u00e3o, a gripezinha do coronav\u00edrus. Dele nada pretendemos deduzir sobre seus contextos pol\u00edticos, mas apenas sobre a morfologia e a sem\u00e2ntica gramatical, ou mesmo os efeitos de intera\u00e7\u00e3o envolvendo a pragm\u00e1tica lingu\u00edstica. Conclui-se a seguinte combina\u00e7\u00e3o de sentidos: Refer\u00eancias BECHARA, Evanildo. Moderna Gram\u00e1tica Portuguesa. 38 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. FREITAS, Hor\u00e1cio Rolim. Princ\u00edpios de Morfologia. 5 ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. SANTANA, Messias dos Santos. O sufixo diminutivo em portugu\u00eas: forma, funcionamento e significa\u00e7\u00e3o \u2013 do s\u00e9culo XIII ao XX. Tese (Doutorado em Filologia e L\u00edngua Portuguesa). 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